Calendário naturalista de Janeiro

Janeiro é o auge do verão: chove quase todo dia, a mata fica encharcada e não chega a secar entre uma chuva e outra. Tem fruta madura em quase toda árvore, e por isso a mata fica cheia de movimento. Quem anda na trilha ouve antes de ver.

Insetos

Em janeiro é provável ver a cigarra-verde e o gafanhoto-soldado. A cigarra passa anos enterrada, sugando raiz, e sobe para a árvore só no fim da vida, para cantar. As libélulas ficam sobre as poças e caçam em pleno voo, sem pousar.

Plantas

Em janeiro a mata fica cheia de fruta madura: grumixama, uvaia, cambuci, jabuticaba e araçá amadurecem juntos. A embaúba dá fruto o verão inteiro e alimenta quase tudo que voa. Nas bromélias, a água fica parada entre as folhas, e dentro dela mora um mundo inteiro.

Aves

Com tanta fruta madura, a mata enche de pássaro comendo. O tiê-sangue é vermelho vivo e anda em bando pequeno. O surucuá faz o contrário: fica parado no galho por muito tempo, calado, e some assim que percebe gente.

Fungos

Janeiro é mês de chuva forte, e a mata não chega a secar. Na madeira caída e perto das cachoeiras o cogumelo brota de um dia para o outro. O coprino abre o chapéu de manhã e se desmancha em tinta preta antes de anoitecer.

Aracnídeos

A aranha-caranguejo não faz teia: fica parada na flor, da cor da flor, esperando a abelha chegar. Os opiliões se juntam no tronco úmido, um encostado no outro. E há aranha que caça na beira da água e mergulha quando se assusta.

Anfíbios

Em janeiro é provável ver a perereca-grudenta e a rã-manteiga. Com a chuva o brejo enche e elas cantam a noite inteira. A rã-das-pedras escolheu outro lugar: vive no paredão molhado da cachoeira, onde a água escorre fina.

Répteis

O teiú é o maior lagarto daqui e anda pelo chão sem pressa, farejando com a língua. A jararaca fica enrolada no folhiço e confia na camuflagem, e por isso no verão se olha onde pisa. No mar, perto das pedras, passa a tartaruga-verde.

Mamíferos

O coandu sobe as árvores de noite, coberto de espinhos, e usa a cauda enrolada no galho como se fosse mais uma mão. A preguiça dorme o dia no alto e desce ao chão poucas vezes na vida.

Peixes

O góbio vive nas poças que sobram entre as pedras quando a maré baixa. As nadadeiras de baixo dele são grudadas uma na outra e funcionam como ventosa, então a onda passa por cima e não o arranca.

Moluscos

O caramujo-amora anda devagar pelo costão e fura a concha de outros bichos para comer o que tem dentro. Leva horas em cada furo, e não desiste.

_orquideas

A baunilha sobe pelo tronco como cipó, e é dela que sai a fava usada na cozinha, depois de meses curtindo. O cataseto e a chuva-de-ouro também estão floridos.

_frutas

Em janeiro a mata está no auge da fruta: embaúba, chal-chal, capororoca e capitiú amadurecem juntas. A figueira é a mais importante de todas, porque dá fruto o ano inteiro e sustenta dezenas de aves e os morcegos quando falta o resto.

Crustáceos

A maria-farinha corre na areia seca e desaparece no buraco antes que a gente chegue perto. O guaiá-açu tem pinça preta e grossa, feita para quebrar concha. E existe caranguejo que vive dentro da bromélia, na água entre as folhas, longe do mar.

por_do_sol

No começo de janeiro o sol ainda se põe no mar em Maresias, e ao longo do mês vai voltando para a serra. É verão: o ar carregado de umidade e calor transforma o horizonte numa pintura viva, com cores intensas até depois de o sol sumir.

_cores

Em janeiro a serra está no verão das manchas: o manacá-da-serra abre em branco, fica rosa e termina lilás, três cores na mesma árvore; o jacatirão-açu pinta trechos inteiros de branco; e a orelha-de-onça começa a mancha rosada que vai durar até o outono.

Registrado em janeiro

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