Guanandi
Calophyllum brasiliense
- Grupo
- Plantas · árvore
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Fotografias
- 15
Hoje é o Dia da Árvore, e a árvore de hoje mora com o pé na água. É o guanandi, que aqui em Maresias faz a borda do caixetal, a floresta alagada onde a caixeta cresce no fundo mais fundo e ele fica na beira, onde o chão alaga e seca conforme a chuva. Durante milhares de anos ele evoluiu para viver assim: a madeira dele não apodrece na água, nem depois de anos. Poucas árvores conseguem. É uma madeira nobre, e foi a nobreza dela que a levou para longe do brejo.
Foi isso que os construtores de navios descobriram. No século XVIII, os navios de guerra de Portugal eram feitos na Bahia, com madeira brasileira, e o guanandi estava entre as madeiras que iam para o arsenal do rei, na Bahia e em Lisboa. Navio de madeira brasileira durava mais de vinte anos no mar. Os navios ingleses, de carvalho, duravam quinze.
Num navio de madeira, o perigo não era só a bala de canhão. Era a lasca. Quando a bala atravessava o casco, a madeira explodia em estilhaços, e eram eles que feriam a tripulação. Por isso os arsenais procuravam madeira densa e dura, que segurasse firme. A do guanandi é vermelha, pesada e não estraga na água: o tipo de tronco que o rei queria.
Então veio a guerra. Em 1806, Napoleão fechou os portos da Europa para a Inglaterra, e a madeira do Báltico, de onde saíam as tábuas e os mastros da Marinha inglesa, parou de chegar. A Inglaterra saiu pelo mundo atrás de madeira. Em 1810, dois anos depois de a corte portuguesa chegar ao Rio de Janeiro fugindo do mesmo Napoleão, Portugal e Inglaterra assinaram um tratado, e um artigo inteiro dele dizia: a Marinha inglesa podia comprar e cortar madeira nas matas do Brasil para seus navios de guerra, e construir e consertar esses navios nos portos brasileiros. Dois reinos, o que perdia a Europa e o que fugia dela, olhando para a mesma mata.
Séculos de corte cobraram o preço. Hoje o guanandi está na lista das espécies ameaçadas do estado de São Paulo, como quase ameaçada, e a floresta alagada onde ele vive é protegida pela lei da Mata Atlântica. O lugar dele não é o navio: é aqui, na borda do caixetal. No litoral sul de São Paulo e no Paraná, o papagaio-de-cara-roxa, um dos papagaios mais raros do Brasil, faz ninho nos ocos do alto do guanandi, e o papagaio só começou a se recuperar quando a árvore voltou a crescer.
Essas fotos fiz na floresta paludosa de Maresias, no caminho da praia, onde vários guanandis fazem a borda do alagado. Folha verde-escura riscada de nervuras finas, todas paralelas, como se alguém tivesse passado um pente do talo até a ponta. Hoje ela faz sombra na lama, e é ali que ela tem de ficar. Um dia, dois reinos a disputaram.