Saracura-do-mato
Aramides saracura
- Grupo
- Aves
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Endemismo regional
- Sim
- Fotografias
- 26
A saracura-do-mato a gente escuta muito antes de ver. Ela vive escondida no fundo da mata úmida, mas no amanhecer e no entardecer solta a voz, e não é qualquer voz: o casal canta junto, em dueto, e os vizinhos respondem, e daqui a pouco é um coro inteiro de saracuras ecoando pelo vale. A mata parece que acordou gritando.
De aparência, ela é discreta: cabeça e peito cinza-chumbo, costas verde-amarronzadas, um tom ruivo na nuca. Mas aí vêm os detalhes que entregam o capricho: os olhos são vermelhos e as pernas, cor-de-rosa. Uma ave séria de sapato rosa.
Ver uma é questão de sorte e paciência. Ela prefere ficar no meio da vegetação fechada, perto de brejo e córrego, mas de vez em quando resolve atravessar uma trilha, e aí cruza correndo, de passos apressados, como quem foi pego fazendo algo errado. Dois segundos e sumiu de novo.
O trabalho dela é no chão: vai revirando as folhas mortas do piso da floresta atrás de bichinhos, e come também frutas caídas. Mesmo sem ninguém ver, ela deixa recado da passagem: pegadas na lama da beira do córrego.
E ela é exigente com moradia: gosta de mata úmida bem conservada. Onde tem saracura-do-mato cantando, o mato está bem cuidado.
Essa foto eu fiz em Santa Isabel, num desses momentos raros em que ela resolveu aparecer.
Se um dia a gente estiver numa trilha e ouvir um coro alto vindo do fundo do vale, fica quietinho e espera: pode ser que uma delas resolva atravessar o caminho correndo. Repara nas pernas rosas.