Frango-d'água-comum
Gallinula galeata
- Grupo
- Aves
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Fotografias
- 16
Ele chegou voando de noite. É assim que o frango-d'água muda de lagoa: de dia o voo dele é curto e desengonçado, com as pernas penduradas, mas quando escurece ele sobe e atravessa a escuridão até achar outra água com mato na beira. Foi assim que um deles encontrou o caxetal da nossa rua, aqui em Maresias, e resolveu ficar.
E ele é daqui mesmo. Não veio de fora, não fugiu de lugar nenhum: o frango-d'água é nativo das Américas e vive no Brasil quase inteiro, faltando só a Amazônia, onde é difícil de encontrar. Por muito tempo os cientistas acharam que ele era a mesma espécie de um parente que vive do outro lado do oceano, até que em 2011 compararam os genes dos dois e descobriram que o nosso é outro. O nome científico dele, galeata, quer dizer "de capacete", por causa do escudo vermelho na testa.
Esse escudo vermelho é um aviso. Quanto maior e mais vermelho, mais forte é o dono dele, porque escudo grande só consegue manter quem está saudável e bem alimentado. Os outros enxergam isso de longe: em testes com parentes próximos dele, quando os cientistas colocavam por perto um boneco de escudo grande, as aves de verdade recuavam mais rápido. Não tem como fingir força com um escudo pequeno.
Os pés são a outra ferramenta dele. Os dedos são compridos e finos, e com eles ele caminha por cima da lentilha-d'água, aquele tapete de folhinhas verdes que cobre a água parada do caxetal, como quem anda numa calçada que afunda um pouco a cada passo. Foi assim que fotografei um deles numa manhã de julho, atravessando o verde com a água na canela e o escudo vermelho brilhando no meio da sombra. Quando nada, ele balança a cabeça para frente e para trás a cada remada, como quem concorda com alguma coisa.
O ninho é uma plataforma que ele mesmo monta sobre a água, carregando galho por galho no bico, em seis a oito dias. Uma pesquisadora que acompanhou dois ninhos num parque de Piracicaba desmontou um deles depois de abandonado e encontrou galhos de várias grossuras, casca de árvore, capim, musgo, raiz, folha, vagem, e um pedaço de sacola plástica amarela. Nos dois ninhos havia plástico. É o lixo da gente entrando na casa dele.
Os ovos são esverdeados com pintas castanhas, e os filhotes nascem pretos, cobertos de penugem, com o bico já vermelho e a cabeça quase careca: no alto da cabeça não nasce penugem, e a pele aparece vermelha e azul, com a garganta amarela. Aqui em casa a gente chama eles de carequinhas. Essa careca colorida tem motivo. Nos parentes dele que criam ninhadas grandes, com muitos irmãos disputando comida ao mesmo tempo, os filhotes ganharam ao longo do tempo esses enfeites de cabeça e de bico: é o jeito de cada um chamar a atenção dos pais no meio da multidão. Em um ou dois dias eles já estão fora do ninho, nadando atrás dos adultos. Num dezembro fotografei uma família inteira no caxetal: o casal e três carequinhas abrindo caminho na lentilha-d'água, no meio de pétalas brancas que tinham caído das árvores e boiavam em volta deles.
Aí vem a parte que eu mais gosto. Quando o casal faz uma segunda ninhada na mesma temporada, os filhotes da primeira, ainda jovens, ficam por perto e ajudam a alimentar os irmãos menores. Numa das minhas fotos de novembro aparece um desses jovens: cinza, ainda sem o escudo vermelho, nadando colado nos adultos. E de vez em quando um frango-d'água bota os ovos no ninho do vizinho e deixa a criação por conta dos pais adotivos. O cuidado dos pais também tem um lado de mãe brava. Num estudo com um parente próximo dele, os pais davam sacudidas nos filhotes que pediam comida demais, principalmente nos maiores, e o resultado era que os menores ficavam mais perto dos pais e ganhavam mais comida. Uma sacudida para o grandão parar de gritar e sobrar para o pequeno.
O Kaian me perguntou como ele dorme, se é no poleiro, igual galinha. A resposta é quase isso. O frango-d'água não dorme no chão nem boiando: ele monta plataformas de talos e folhas sobre a água, parecidas com o ninho, algumas até com uma rampa que desce até a água, e usa essas camas flutuantes para descansar. Quando os filhotes já saíram do ninho, é nessas plataformas sobressalentes que os carequinhas dormem à noite.
Uma vez um deles entrou dentro da nossa casa. Pegamos com cuidado, sem apertar, e levamos de volta até a beira da água do caxetal, para que ele seguisse a vida dele no lugar dele.
Se você passar pelo caxetal e ouvir um "kürrk" agudo saindo do meio das folhas, é ele avisando que está em casa. E agora você sabe como ele chegou lá: voando no escuro, sozinho, até achar a nossa rua.