Bicho-do-cesto
Oiketicus kirbyi
- Grupo
- Insetos · mariposa
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 6
A primeira vez que vi um desses, fiquei parado olhando e não entendi o que era. Pendurado num galho, na altura do meu peito, havia uma coisa que parecia uma fogueira pequena: gravetos empilhados em volta, presos uns nos outros pelas pontas, e tudo envolvido por uma camada de seda cinzenta. Não parecia um ninho, não parecia uma casca de fruta, não parecia obra do vento. Fotografei em 16 de janeiro de 2024, em Maresias, com uma pergunta na cabeça: o que é isso? Fui pesquisar e encontrei mais uma grande história da Mata Atlântica, dessas que a gente passa a vida andando por perto sem saber.
Era uma casa, e tinha alguém dentro. Para entender aquela construção, eu precisei começar bem antes dela, no ovo. Os ovos dessa mariposa ficam guardados dentro de um cesto igual àquele, o da mãe, e passam cerca de quarenta e três dias ali. Quando chega a hora, as filhotes saem com dois milímetros de comprimento pela abertura de baixo, e a primeira coisa que fazem na vida é começar a tecer. Cada uma monta na hora o seu próprio cesto, do tamanho de um grão de arroz, em volta do próprio corpo. Muitas se penduram num fio de seda e esperam o vento levar para outra planta, que é como essa espécie se espalha por um lugar sem que a fêmea precise voar.
A partir desse momento, a lagarta não anda mais sem a casa. A construção fica presa ao corpo dela e tem uma abertura na frente, por onde saem a cabeça e as três primeiras patas, e outra atrás, menor, por onde ela joga fora os restos. Quando alguma coisa se aproxima, ela recolhe tudo para dentro e a casa fica fechada, parecendo um pedaço de mato seco. É por isso que a gente passa reto: não tem nada ali com cara de animal. A casa cresce com a moradora. Conforme vai comendo, a lagarta corta talos e pedaços de folha da planta em que está e costura tudo na parede, com seda, sempre acrescentando material na borda de cima. Uma medição feita por pesquisadores brasileiros, em eucalipto, deu uma ideia do apetite: cada lagarta passa por mais de mil centímetros quadrados de folha do começo ao fim da vida, e uma parte disso ela corta sem comer, só para aproveitar como material de obra. É daí que vem o ar de fogueira, com os talos todos apontando na mesma direção.
Isso leva meses, não semanas. Os machos trocam de pele oito vezes, as fêmeas nove, e a fase de lagarta dura cerca de cento e quarenta dias neles e cento e cinquenta e um nelas. Nesse tempo a casa vai de um grão de arroz até quase o tamanho de um dedo, sempre pendurada, sempre sendo arrastada de folha em folha.
Quando chega ao tamanho final, a lagarta amarra a casa com força no galho pela boca mais larga, fecha a entrada com seda e vira pupa lá dentro, de cabeça para baixo. Fica assim quase quarenta dias. Isso vale para os dois sexos, e é aqui que os caminhos se separam de um jeito difícil de acreditar.
Do cesto do macho sai uma mariposa de verdade. Ele rompe a casca da pupa, sai pela abertura de baixo e voa: marrom, corpo coberto de escamas, quatro centímetros de asa aberta e um par de antenas em forma de pente, que serve para encontrar a fêmea pelo cheiro. A vida adulta dele dura três dias. Do cesto da fêmea não sai ninguém. Ela também deixa a pupa, mas continua no mesmo lugar, com o corpo mole e a forma de larva que tinha antes, sem asas, sem antenas e sem as pernas de andar. Passou a vida inteira construindo aquela casa, e é dela que a casa não a deixa sair.
O encontro acontece no fim da tarde, entre cinco e sete horas, quase sempre no mesmo dia em que o macho saiu do próprio cesto. Ele pousa na casa dela, encontra a abertura de baixo e estica o abdome para dentro, atravessando também a casca da pupa onde ela está, até alcançá-la. São duas paredes entre os dois, e ele nunca chega a ver a fêmea. A união dura cerca de meia hora. Depois ela põe de três mil e quinhentos a seis mil ovos ali dentro, na própria casca da pupa, na maioria das vezes por volta de cinco mil, e fica com eles até o fim. Quarenta e três dias mais tarde, a casa volta a ter dono e a história começa outra vez, com dois milímetros e um fio de seda. A volta completa leva perto de sete meses, e a mariposa que voa fica com três dias dela.
Encontrei outra em 7 de janeiro de 2026, também em Maresias, e essa estava em movimento. Andava por uma pedra com a casa nas costas, a cabeça listrada de marrom para fora da abertura, puxando a construção inteira atrás de si em cima da rocha lisa. Foi vendo aquilo que a primeira foto fez sentido: o feixe de gravetos amarrado no galho não era um pedaço de mato preso ali, era a mesma construção, na hora em que a moradora decidiu parar.
Se você vir um feixe de gravetos pendurado num galho e ele parecer bem-feito demais para ser coisa do vento, chegue perto e espere. Se ele andar, você encontrou uma.
Fontes: Campos Arce, Peres Filho e Berti Filho, Biologia do bicho do cesto Oiketicus kirbyi em folhas de Eucalyptus spp (Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, USP, Piracicaba), com os dados de ínstares, duração de cada fase, consumo foliar, número de ovos, horário e duração da cópula; Novas interações entre Oiketicus kirbyi e plantas hospedeiras (2023); fichas de extensão universitária sobre Psychidae (Universidade da Flórida e Virginia Tech) para o hábito de carregar o cesto e a dispersão das lagartinhas em fio de seda.