Histórias

As histórias mais incríveis do acervo.

A lagarta desta borboleta canta para chamar as formigas

O canto passa pelo galho e chama formigas, que viram guarda-costas em troca de um líquido que ela solta do corpo. Ninguém ouve: só um microfone encostado na planta registrou um tique-taque e um galope que acelera no fim. Aqui em Maresias, a borboleta azul pequena aparece no chão molhado e nas flores.

A lagarta tem guarda-costas e paga o serviço com gotas

Formigas tocam tambor nela com as antenas, e ela responde soltando uma gota de duas glândulas no fim do corpo. Em troca, as formigas ficam de plantão e espantam aranhas, vespas e moscas. Uma formiga chega a ir buscar outra para ficar no lugar dela. Fotografei esta borboleta em Maresias, em julho de 2021.

Uma orquídea, um beija-flor, o vento e um cogumelo

A flor só vira fruto se um beija-flor levar o pólen grudado na ponta do bico. O fruto se abre no galho e o vento espalha milhares de sementes finas como pó. Mas a semente só nasce se cair num galho onde mora um cogumelo, uma rede de fios superfinos na casca, que entra nela e a alimenta. Fotografei esta orquídea em Maresias.

Essa vespa caça aranhas, paralisa sem matar e tranca elas vivas numa casinha de barro que ela mesma constrói.

Ela faz a casa bolinha por bolinha, enche cada quarto de aranhas paralisadas, põe um ovo em cima e fecha. A larva nasce e come as aranhas uma a uma. Uma casinha caiu na minha varanda, e dentro estavam as aranhas verdes, vivas.

Esse tucano é tão comum na minha rua que eu demorei a saber que ele é raro.

Ele passa em bando pela copa, come o cacho da palmeira e espalha a semente pela mata. Só existe no Brasil, já foi avaliado como Em Perigo, e o que falta pra ele é árvore velha com oco pra fazer ninho. Onde ele sumiu, a juçara encolheu a semente.

Ela se veste de borboleta de vidro, e eu descobri isso num panapaná na flor da juçara.

Numa trilha perto de casa, uma borboleta de asas de vidro me levou até uma juçara florida, com dezenas delas no cacho. Escrevi um poema ali, nas pedras da cachoeira. Nas fotos, depois, vi que eram mariposas.

Ela cresce a vida inteira para acender uma tocha que dura duas semanas.

A tocha é um monte de flores apertadas, pink com a ponta roxa. Dura uma ou duas semanas e apaga, e aquela planta nunca mais floresce. Na base já nascem as filhas, que vão acender cada uma a sua vez.

Existe um guaraná na Mata Atlântica, e ele é um cipó

Do mesmo gênero do guaraná da Amazônia, com fruto vermelho de três quinas que abre sozinho no galho e parece um olho.

Encontrei um cogumelo gigante na Mata Atlântica, e descobri que eles podem chegar a um metro

Nasce em terra revirada, leva quase um mês para crescer e nunca vem sozinho.

A incrível história do príncipe viajante

Ainda é possível ver o lindo príncipe por aqui, antes que ele siga sua viagem para o sul. Ele passa o inverno inteiro em Maresias, some em outubro e vai nascer e criar filhote nos campos da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul. O voo de conquista, em que sobe trinta metros cantando, ele guarda para lá.

O incrível ciclo de vida do bicho-do-cesto

Ela constrói uma casa de gravetos com seda, que lembra uma pequena fogueira pendurada no galho, e carrega essa casa a vida inteira. A fêmea nunca sai de dentro, e é ali que põe cinco mil ovos.

Por cima ela é vermelha e preta. Por baixo, vira pedra.

Fechada numa parede de concreto, o rendado de cinza e marrom se mistura com a textura e ela some. As primas têm livro e mapa de migração; desta aqui, quase nada. De 1.021 registros no mundo, 864 são do Brasil.

Ela passa anos debaixo da terra para cantar meia hora ao entardecer.

São de dois a cinco anos agarrada a uma raiz, no escuro. Quando sobe e vira adulta, tem poucas semanas para achar parceira, e o que faz nesse tempo é cantar. Por isso a saída é combinada: quem erra o dia canta sozinho.

Um inglês passou onze anos na Amazônia para entender o truque dessa borboleta.

Ela não tem veneno, mas usa o desenho de uma prima venenosa. O passarinho que passou mal com a verdadeira não arrisca de novo. Henry Walter Bates explicou isso em 1862, e o truque leva o nome dele.

Várias espécies vestem o mesmo uniforme, e nenhuma delas é parente.

Amarelo e preto quer dizer a mesma coisa em toda a mata: não me coma. Em banco de areia, os machos dessa mariposa se juntam a borboletas de outras famílias com o mesmo desenho nas asas, e cada uma reforça a fama da outra.

O que parece sujeira na ponta da folha é a obra que mantém a lagarta viva.

Ela come a folha dos dois lados da nervura, deixa a linha dura apontando para fora e vai grudando ali as próprias bolinhas de cocô com seda. Depois sobe e fica no fim da linha, fora do alcance das formigas, que chegam à beira e não passam.

De asa aberta ela chega a quinze centímetros, e ninguém sabe para que serve o olho que ela carrega.

Quase uma mão de adulto aberta. Voa quando a luz cai e desce para comer pitanga passada no chão, muitas vezes ao lado do capitão-do-mato. Nenhuma das explicações para o olho nas asas fecha por completo.

Ela bebe o doce das flores e ainda desce ao chão para lamber barro.

O néctar é quase só açúcar e água, e falta nele o sal de que o corpo precisa. Por isso os machos descem para o chão molhado e ficam ali com a tromba na água suja, enquanto as fêmeas seguem nas flores. E o amarelo das asas vem do resto de nitrogênio que o corpo descarta: foi nessas borboletas que esse pigmento foi descoberto.

O macho entrega à fêmea um pacote com veneno, e os ovos já nascem protegidos.

A lagarta come crotalária, planta que guarda veneno nas folhas, e cresce com esse veneno no corpo. No acasalamento o macho passa uma parte do dele, ela soma ao seu e coloca tudo nos ovos. Aranha de teia que morde uma dessas costuma cortar os fios e deixar a mariposa ir embora.

Existem 121 registros desse besouro no mundo inteiro, e um deles estava parado no meio da rua.

Ele é um besouro-rinoceronte sem chifre, porque chifre ali é coisa de macho. A larva come tronco caído no chão da mata por até três anos antes de virar besouro. Encontrei esta no asfalto, ofereci um galho, ela subiu sozinha e levei para um lugar seguro.

A borboleta mais bonita da trilha carrega o nome de quem caçava gente fugida.

Ela escolhe uma trilha e patrulha o mesmo trecho todo dia, indo e voltando pela mesma linha, sempre no mesmo horário. O capitão do mato fazia igual: patrulhava as trilhas atrás dos escravos que fugiam. O azul das asas, esse, nem tinta é.

No Dia da Árvore, a história de uma árvore de brejo de Maresias que dois reinos disputaram

Ela vive na borda do caixetal, com o pé na água, e a madeira dela não apodrece. Portugal a levava para os navios de guerra. Quando Napoleão fechou a Europa, a Inglaterra veio buscá-la no Brasil, com tratado assinado.

Tem uma serra oca na cabeça, e por trezentos anos a ciência jurou que ela acendia no escuro

A cabeça cresceu pra frente, cheia de dentes e vazia por dentro, e ninguém sabe pra quê. Uma naturalista escreveu em 1705 que dava pra ler à luz dela, Lineu acreditou, e o nome ficou. No estado de São Paulo existem dois registros. Um é meu.

Os filhotes dele nascem carecas, e a careca é colorida de propósito

No alto da cabeça não nasce penugem: a pele fica vermelha e azul, com a garganta amarela, para cada um chamar a atenção dos pais no meio dos irmãos. Aqui em casa a gente chama eles de carequinhas. Vivem no caxetal da nossa rua, em Maresias.

Um besouro tão lindo que virou joia de condessa, e ele mora aqui em Maresias

Coberto de escamas que brilham como pedras cravadas, ele virou colar no Brasil de 1826 e tiara de condessa em Londres. A cor não é tinta, é cristal, e não desbota nem depois de morto. Encontrei um vivo, andando no sol, numa pedra da praia de Maresias.

Um perfume indescritível pendurado nos galhos da Mata Atlântica

Em 1837 um botânico inglês a batizou de "a perfumada", dizendo que ela enchia as florestas do Brasil com cheiro de junquilho. O nome mudou, o perfume ficou, e ninguém até hoje conseguiu descrevê-lo. Encontrei-a florida em Camburí e em Cananéia.

O manto tupinambá, tesouro da cultura indígena brasileira, foi feito com o vermelho intenso das penas dos guarás

Para os Tupinambá, o manto feito com as penas do guará não é um objeto de museu: é um ente sagrado, um ancestral vivo, que tem força, sabedoria e fala com o seu povo. Os onze que existem foram parar em acervos da Europa, e agora um voltou.

Um lindo encontro de cores: uma perereca rara das matas de altitude, que parece feita da pedra, da folha seca e do limo

Cor de caramelo, pernas listradas e olhos desenhados, parada numa poça entre pedras, folhas secas e limo, a mil metros de altitude em Queluz. Um dia de espera para saber o nome, um pesquisador que nunca teve a sorte de encontrar uma, e 18 registros dela no mundo inteiro.

No Brasil, a ciência só conhecia essa mariposa de gavetas de museu

Nove exemplares em gavetas, de 1950 a 2002, e nenhuma foto dela viva. De 2003 a 2014, nada. Hoje são 43 fotos no país, e a única de São Sebastião é minha.

O cogumelo que vale fortuna lá fora e que Minas Gerais nunca tinha visto

Na Europa ela é colhida aos milhares e vendida a peso de ouro. No Brasil inteiro, cabe em 23 fotos e nove folhas de herbário. Em Minas Gerais, só existe a minha, e ninguém sabe ainda que espécie ela é.

Um besouro tão raro que só existem duas fotos dele no mundo, uma das espécies mais raras que já fotografei

Achei que era uma joaninha. Ninguém reconheceu. Um identificador foi atrás numa lista de todos os besouros das Américas, chegou num artigo alemão de quase cem anos, e a descrição batia palavra por palavra. No mundo inteiro há duas fotos dele. Uma é minha.

Uma joia da serra que agarra formigas e esfrega nas penas

Mora lá no alto, entre 600 e 2.200 metros. Na praia, em seis anos, apareceu uma vez só, num dia de frente fria. E pega formiga viva com o bico e enfia entre as penas. Ninguém sabe ao certo por quê.

Não sabe nadar, mora numa jangada de bolhas e solta tinta roxa

Ele fabrica a balsa com a própria baba, navega de cabeça pra baixo e come caravelinha. E o roxo dele tem um primo no México que quase sumiu do mapa por causa de uma fábrica de tinta.

Essa borboleta não gosta de flor, ela quer fruta passada

Come o que caiu e começou a fermentar, e seiva escorrendo de tronco ferido. Nas fotos ela aparece em cima de uma fatia de mamão e numa casca de melancia.

Se disfarça da comida para almoçar no meio do rebanho

A larva dessa joaninha se cobre de cera branca e fica parecida com as cochonilhas que ela come. As formigas que protegem o rebanho não percebem e deixam ela comer à vontade.

As formigas não estão atacando, estão ordenhando

Aquele chumaço branco no caule são dezenas de filhotes sugando seiva, e o excesso doce sai por trás. A formiga bebe, defende o rebanho e até muda os bichinhos de pasto.

Aquele ponto preto no olho dele que te segue não é pupila

O olho do louva-a-deus tem milhares de facetas, e as poucas apontadas para você absorvem a luz em vez de devolver. O ponto escuro é o buraco que o seu próprio olhar faz no olho dele.

Parece uma gota de metal derretido e muda de cor quando se assusta

Meio centímetro de borda dourada transparente com o miolo verde fluorescente. O brilho vem de camadas com líquido dentro, e ele altera a hidratação para trocar de cor.

A pernilonga gigante não pica, não suga sangue e não é mãe de mosquito

Ela nem tem aparelho para furar pele. E as pernas soltam de propósito: o pássaro fica com a perna e o bicho escapa.

Não põe ovo: já solta as larvas prontas para comer

A fêmea segura os ovos dentro do corpo até eclodirem, o que dá vantagem numa corrida em que chegar primeiro é tudo. É por isso que a polícia científica conta com ela.

Aquele espinho no caule levanta e vai embora

O tórax dele virou uma peça oca que imita espinho de planta. Nesse grupo tem quem imite gota, formiga e até cocô de passarinho.

O casulo já vem com a porta de saída pronta e selada

A lagarta recorta uma fenda em T na tampa antes de fechar tudo. Quando o adulto está pronto, empurra e sai, sem precisar romper nada.

Existem trezentos e setenta e quatro registros dela no mundo

Preta com duas fileiras de pontos brancos e a lateral laranja, deslizando sobre muco. Se cortada em pedaços, cada pedaço vira um bicho novo.

Estende um lençol de seda na folha e monta guarda

A teia dela não é para pegar comida: é o berçário dos filhotes, e ela caça correndo. Nas fotos aparece até a muda, com a roupa velha pendurada acima dela.

Vive um dia, sem boca, depois de anos embaixo d'água

Ele nasce sem aparelho para comer e sem intestino funcionando. A vida inteira aconteceu submersa, e a parte alada é só o epílogo.

A larva constrói uma casa portátil com o próprio cocô e anda com ela

A mãe já reveste o ovo com um estojo, e a larva vai ampliando a construção conforme cresce. Na hora de virar adulta, ela sela a porta por dentro.

Sobe corredeira com um leque que abre no meio da perna

Existe um ventilador de cerdas dobrado dentro de uma ranhura, que se abre na hora da remada. É o que permite andar sobre água corrente sem ser levado.

A borboleta cuja lagarta come folha morta do chão

Quase toda borboleta come folha viva. Esta faz parte do time da reciclagem, junto com cupim, minhoca e fungo.

Aqueles recortes redondos nas folhas do jardim não são de lagarta

É uma abelha que corta discos quase perfeitos com a boca e voa carregando o pedaço enrolado entre as pernas. Com eles ela forra o berço dos filhos.

É uma vespa sem asas que anda a pé pelo chão da mata

O corpo é coberto de veludo preto e dourado, e a armadura é tão dura que resiste a mordida. A ferroada é uma das mais doloridas do mundo dos insetos.

Paralisa a aranha viva e a arrasta para o filho comer com calma

A larva come de dentro para fora, deixando os órgãos vitais por último para a aranha durar. E a vespa adulta, essa, passa a vida em flor tomando néctar.

A lagarta dessa mariposa vive submersa e respira por brânquias

É uma das raríssimas mariposas que voltaram para a água. A larva come planta aquática no fundo do rio e só sobe quando chega a hora de virar adulta.

O cogumelo que tem mais de vinte mil sexos

É o organismo com mais tipos sexuais já descrito, e quase qualquer um deles pode se cruzar com quase todos os outros. Ele seca por meses, parece morto, e volta na primeira chuva.

A mãe atravessa o quintal com dezenas de filhotes nas costas

Ela arrasta a bolsa de ovos presa no fim do corpo, e quando eles nascem sobem e ficam de carona por dias, empilhados nos pelos dela.

Existem dois registros deste besouro no mundo, e um é meu

Ele é verde-dourado metálico, achado na areia de Maresias. A cor não é tinta: é a própria casca separando a luz, do jeito que uma bolha de sabão faz.

Um décimo dos registros do mundo está aqui, e ninguém sabe o que é

São trezentos e três no planeta inteiro e trinta neste pedaço de litoral. Nenhum deles chegou à espécie, nem depois de um especialista em gafanhotos olhar.

A asa dela é vidro de verdade, com antirreflexo

Não é asa clara nem esbranquiçada: dá para ler o que está atrás. A membrana é coberta por estruturas menores que a luz, que impedem o reflexo, igual a lente de óculos.

Aquilo que parece coral no costão é um bairro, e cada furo é uma porta

Milhares de vermes marinhos morando lado a lado, e cada um construiu o próprio tubo catando grão de areia por grão de areia. A gente pisa em cima achando que é pedra.

O fio vermelho de dois centímetros que abastece o veneno do sapo-flecha

Os sapos mais tóxicos do mundo não fabricam o próprio veneno: eles comem quem fabrica. Uma espécie deste grupo é apontada como uma das fornecedoras.

Tem dois faróis no ombro e um terceiro que só acende em voo

Os dois pontinhos verdes do tórax ficam acesos direto. O terceiro, embaixo do abdômen, acende quando ele decola, e vira um risco de luz atravessando o escuro.

A mãe cola os ovos nas costas do pai e vai embora

É ele que carrega a ninhada, areja e leva à superfície até os filhotes nascerem. Um dos poucos casos de pai solteiro no mundo dos insetos.

Empurra a bola em linha reta olhando para a Via Láctea

Dois deles rolam o esterco para longe do monte, e para não andar em círculo usam o céu. Testaram com um chapeuzinho tapando a vista, e a linha reta se perdeu.

O único inseto do mundo que ferroa pela ponta da antena

A antena dele termina numa estrutura com canal e glândula, igual à de um escorpião. Se você segurar, ele encosta a antena na sua mão e injeta.

A larva anda com o próprio cocô equilibrado nas costas

Ela empilha as fezes e as peles velhas num garfo articulado e carrega aquilo por cima como um guarda-chuva. Se algo se aproxima, ela balança o guarda-chuva na direção do intruso.

A lagarta virou um zumbi de verdade, e protege as vespas que a comeram por dentro

Até oitenta larvas crescem dentro dela e saem pela pele. Ela não morre: para de comer, para de andar e ataca quem chega perto dos casulos. E quem está no comando não é ela.

A flor que abre branca hoje e estará lilás depois de amanhã, sem sair do galho

Ela não cai para nascer outra no lugar: troca de cor ali mesmo, começando pela borda das pétalas. Só existe na Serra do Mar, e a cidade se apaixonou tanto que a plantou nas calçadas. Marque uma flor branca e volte em dois dias.

O açaí da Mata Atlântica alimenta a floresta inteira, e quando o tucano some, a semente dele encolhe

Mais de cinquenta espécies de aves comem dos cachos, justamente na estação em que a mata oferece pouco. E cientistas mediram: nas matas sem as aves grandes, a palmeira passou a dar sementes menores. A ausência de um pássaro fica escrita na semente.

Um veleiro do tamanho de uma moeda que nasce canhoto ou destro, e é isso que salva a frota

Ele não rema, não nada, não escolhe caminho: vai para onde o vento manda. Com o mesmo vento, metade encalha na areia e a outra metade segue para o mar aberto. Num dia assim, a praia de São Sebastião amanhece pintada de azul.

Quando o beija-flor vai dormir, um morcego assume a flor

Ele para no ar batendo as asas na frente da flor, como o beija-flor faz de dia. A língua é comprida demais para o tamanho dele, e o jeito como ela estica deixa cientista de queixo caído. As flores daqui têm atendimento 24 horas.

A mãe leva os filhotes até a água dentro da boca, um por um

A mesma boca cheia de dentes que assusta todo mundo vira berço, e se um ovo não abre sozinho, ela ajuda. O focinho dela é o mais largo entre todos os jacarés do mundo, e isso tem um motivo.

Carrega um jardim vivo nas costas e só desce da árvore para fazer cocô

O verde dela não é a cor do pelo, e tem uma bicharada inteira morando ali. A descida é o momento mais perigoso da vida dela, e por que ela insiste nisso os cientistas não explicam até hoje.

O abacaxi são dezenas de frutas grudadas numa só, e enquanto você come, ele come você de volta

Cada olho da casca já foi uma flor. E a ardência na língua não é impressão: tem uma substância ali trabalhando em você. Ele é uma bromélia nativa do Brasil, da mesma família das que moram nas árvores da nossa mata.

Pula para a poça vizinha sem olhar, porque decorou o mapa do costão na maré alta

Cientistas testaram: quem não conhecia o lugar errava quase todos os saltos. Depois de nadar por cima na maré alta, acertava quase sempre. Um peixe do tamanho de um dedo com a memória de um piloto.

O caranguejo que fez Colombo acreditar que a terra estava perto

Em 1492, no meio do Atlântico, a tripulação achou um caranguejo vivo entre as algas que boiavam, e tomou aquilo como sinal de costa. Só que ele nunca vive perto de terra: passa a vida inteira em alto-mar, de carona no que estiver flutuando.

Um peixe que anda pelo fundo do mar com as mãos e esconde duas asas azuis dobradas

Ele caminha na areia apoiado em dedinhos, tateando o almoço, discreto como uma pedra. Quando alguém chega perto demais, abre de uma vez o que estava guardado. É aqui, em São Sebastião.

O figo não é uma fruta: é um jardim trancado, e só uma vespa no mundo tem a chave

Os fiapinhos que você come são flores que nunca viram o sol. Cada figueira tem a sua única vespa parceira, num casamento que já dura milhões de anos. Sem uma, a outra não existe.

Nunca fez um ninho na vida, e o filhote dela nasce um dia antes dos donos da casa

A fêmea bota o ovo escondido no ninho alheio e vai embora para sempre. Já foi flagrada em ninho de mais de duzentas espécies. Duzentas famílias criando um filho que não é delas.

A ave que trabalhou de detector de vazamento de gás, sem sair do céu

Quando um cano furava no meio do campo, os engenheiros da companhia olhavam para cima para descobrir onde. Só funciona por um dom que quase nenhum pássaro tem.

A flor que dá um tiro na abelha, e a abelha nem tinha ido lá comer

Dois fiozinhos na flor funcionam como gatilho armado. A abelha esbarra, leva um susto e sai voando com um pacote grudado nas costas. O que ela tinha ido fazer ali é a parte mais curiosa.

Um girino que nunca nadou! O pai está sempre por perto

Todo mundo aprendeu na escola que girino vive na água. Estes crescem em outro lugar, e é o macho quem escolhe o endereço e defende o pedaço enquanto eles crescem.

Imagina ter os dentes e mastigar dentro da barriga

É assim que ela vive. E quando alguém chega perto demais, ela rosna, e o som vem lá de dentro. Foi a primeira vez que a ciência viu um bicho falar com o próprio estômago.

Um casal de passarinho que dá leite aos filhotes, é por isso que você nunca viu um filhote de pombo!

Passarinho não tem mama. Então de onde sai esse leite, e por que o pai também produz? A resposta explica o filhote que ninguém vê na praça.

O veneno que virou remédio para milhões de corações, e o filhote que nasce com uma isca no rabo

Um dos remédios mais usados no mundo contra pressão alta saiu do veneno dela. E o filhote não precisa aprender a caçar: já nasce com o equipamento certo na ponta do corpo.

Uma das especiarias mais caras do mundo só existe porque um menino de 12 anos aprendeu a fazer o trabalho de uma abelha

Fora da terra de origem, a orquídea da baunilha florescia e a flor caía vazia, porque o único polinizador dela ficou para trás. Em 1841, um menino escravizado, com um palito na mão, descobriu o gesto que toda plantação do mundo repete até hoje.

Ela constrói uma concha em forma de onda perfeita e navega pelo mundo

Polvo não tem concha. Esta fabrica a sua com os próprios braços, fina como papel, e vive dentro dela no mar aberto. Depois de uma ressaca, uma chegou inteira na areia de Maresias.

Eles sempre nascem em quatro gêmeos idênticos, e quando precisa atravessar um rio ele não nada, anda pelo fundo

Quatro cópias exatas de um único ovo, toda vez, sem exceção. E o fôlego para cruzar um rio por baixo ele não aprendeu na água: aprendeu cavando.

Ele canta o tempo todo em silêncio

Um cientista brasileiro o via abrir e fechar o bico como quem canta, e não saía som nenhum. O segredo só apareceu num aparelho feito para ouvir outro tipo de bicho. Para quem é essa serenata, ninguém sabe.

Ela recolhe o cocô de outros bichos, e espalha bem na porta de sua casa, e o jantar chega voando

Mora num buraco no chão, trabalha de dia e forra a porta com estrume de outros bichos para atrair o jantar. E os filhotes têm um truque próprio para ninguém ousar entrar.

Ela tem a menor flor do mundo, mora em Maresias e foi plantada por uma capivara

A flor dela é tão miúda que quase ninguém no mundo viu uma, e ela cobre a floresta paludosa de Maresias aos milhares. Não voa, não anda. Então como chegou até aqui?

Fechar × ‹ ›