Caranguejo-saltador-mimico

Planes minutus

Grupo
Crustáceos
Onde foi registrada
São Sebastião, Maresias
Status de conservação
Não avaliada (NE)
Fotografias
2

Era fim de tarde, com o sol se pondo, e o Kaian tinha ido dar um mergulho. Chegou na areia um pedaço de tronco, e ele veio correndo me chamar: tem um caranguejo preso naquela madeira, vem ver. Olhamos aquilo por um tempo e a primeira ideia que tivemos foi a mais natural do mundo: levar ele até o costão, ali perto, onde caranguejo mora.

Quinhentos e trinta e três anos antes, em 17 de setembro de 1492, no meio do Atlântico, a tripulação de Cristóvão Colombo encontrou um caranguejo vivo nas algas que boiavam. Está escrito no diário de bordo que o Almirante guardou o caranguejo, e está escrito por que aquilo importava tanto: caranguejo, anotou ele, não se encontra a oitenta léguas da costa. A partir dali, começaram a procurar terra no horizonte.

Nós dois erramos, e erramos igual. Ele achou que caranguejo significa terra por perto. Nós achamos que o lugar daquele caranguejo era a pedra do costão. Os dois partimos da mesma ideia, e a ideia estava errada.

Porque esse caranguejo mora no mar aberto. A vida inteira. Ele não tem chão, não tem costão, não tem toca: ele tem jangada. Passa os dias agarrado no que estiver boiando, um tufo de alga, um tronco, uma boia, um pedaço de corda, e vai onde a corrente levar. As algas do dia 17 de setembro eram do Sargaço, uma imensidão flutuante que vive no meio do oceano e não indica costa nenhuma. Colombo ainda tinha quase um mês de mar pela frente, e só pisaria em terra em 12 de outubro. Seis dias depois do primeiro, acharam caranguejos nas algas outra vez.

Para ele, terra não é casa. Terra é onde a jangada encalha e a viagem acaba.

De perto ele impressiona mais do que a gente espera. A carapaça tem uns dois centímetros, e com as pernas abertas ele ocupa boa parte da palma da mão. Não é o caranguejo grande do costão, mas também não é um grãozinho: é um caranguejo inteiro, completo, que cabe na mão e atravessou o oceano.

Até hoje ele é chamado de caranguejo-de-colombo, e não é apelido de internet: o nome aparece no título de artigos científicos.

O disfarce dele é caprichado. O fundo do corpo é marrom, e por cima vêm manchas brancas grandes que parecem imitar os tubinhos de cal que certos vermes colam nas algas do Sargaço. Não é só ficar da cor do fundo, é copiar um detalhe do fundo. E ele não troca de cor quando muda de jangada: a mudança, quando acontece, é lenta. A jangada vai escrevendo a cor do passageiro.

Isso rendeu um achado que diz muito sobre o nosso tempo. Pesquisadores encontraram caranguejos dessa espécie num balde de plástico vermelho boiando, e eles eram vermelho-escuros, mais escuros que qualquer um dos que vivem nas algas. Hoje a jangada às vezes é plástico, e já se encontrou fêmea com ovos vivendo em lixo boiante.

As pernas dele são achatadas feito remos, com uma franja de pelos na borda que não serve para se segurar, serve para nadar. Quem segura são uns espinhos grossos nas laterais, e é com eles que ele fica pendurado de cabeça para baixo debaixo da jangada, e com eles que carrega comida. Nadando, não se afasta mais de cinco centímetros da própria jangada. O mundo dele tem o raio de uma mão. E ele não é raro por aqui: já foi registrado em nove estados do Brasil, e tem uma fêmea guardada em coleção, colhida em Ilhabela, do outro lado do canal. Acontece que ele só chega à areia quando a jangada dele chega.

No fim, não levamos ele para lugar nenhum. Devolvemos ao mar, junto com o pedaço de madeira em que ele morava, e deixamos a corrente continuar o que tinha começado longe dali. Foi a única coisa certa que fizemos naquela tarde.

Caranguejo-saltador-mimico (Planes minutus), crustáceos, fotografado em Maresias, São Sebastião Caranguejo-saltador-mimico (Planes minutus), crustáceos, fotografado em Maresias, São Sebastião

Mais em Crustáceos

Fechar × ‹ ›