Lentilha-d'água
Landoltia punctata
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- Plantas
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Aquele tapete verde que cobre a água parada do brejo não é limo nem musgo. São plantas. Milhares delas, uma do lado da outra, e cada uma cabe folgada na cabeça de um alfinete.
Elas se chamam lentilhas-d'água, e são as menores plantas com flor do mundo inteiro. Menores que a lentilha do feijão, menores que uma letra desta frase. E são plantas completas: florescem, dão fruto e dão semente, tudo isso num corpo de dois a quatro milímetros.
Só que o corpo delas não tem folha nem caule. Nada de tronco, nada de galho, nada de raminho. É uma peça verde só, chatinha, boiando, e embaixo dela saem alguns fios finos que ficam pendurados na água. Nessa aqui são de dois a cinco fios. Parece detalhe bobo, mas é justamente isso que separa ela das primas: as outras lentilhas costumam ter um fio só.
Vira a plantinha e vem a surpresa: por baixo ela é vermelho-vinho. É o mesmo pigmento que dá cor ao repolho-roxo. Por cima verde, por baixo vinho, e cada uma com pontinhos afundados na pele, que foi de onde veio o nome dela.
E a flor? A flor existe, mas quase ninguém no mundo já viu uma. Ela tem dois décimos de milímetro, fica escondida numa dobra na lateral da planta, e é feita de uma única bolsinha de pólen e um único fiozinho para receber pólen. É a menor flor que a ciência já descreveu. Está ali, na sua frente, no tapete inteiro, e a olho nu não dá.
Na maior parte do tempo elas nem se dão ao trabalho de florir: uma planta simplesmente brota outra pela lateral, que brota outra, e as filhas ficam grudadas na mãe formando pencas de até seis. É por isso que o tapete fecha tão rápido. Em condições boas, a população dobra em três dias e meio. Você passa numa semana e o que era um punhado virou um lençol.
Elas não são frescas: aguentam água ácida a ponto de matar quase qualquer outra planta, e é por isso que vivem bem no brejo escuro de mata, onde a folha que cai apodrece e azeda a água. Peixe e ave de brejo comem elas. E tem estudo mostrando que onde há esse tapete nasce menos larva de mosquito.
Agora, como uma planta que não voa e não anda vai parar noutra lagoa? Pega carona. Ela gruda no pé e na pena das aves que pousam na água. E, num trabalho publicado por pesquisadores brasileiros, apareceu o carona mais simpático de todos: capivaras saindo da água com dezenas de lentilhas grudadas no pelo, levando um pedaço do tapete para o próximo brejo. Aqui no caxetal da nossa rua eu vi a mesma coisa acontecer com outro bicho: uma tartaruga-da-Flórida saiu da água com o casco inteiro forrado delas.
Uma coisa curiosa é que a terra natal dela é assunto em discussão. O estudo de referência sobre esse grupo aponta a Austrália e o sudeste da Ásia como lugar de origem, e hoje ela aparece em quase todo canto do mundo onde o inverno é ameno. Aqui no Brasil ela está registrada do Ceará até Santa Catarina.
Essa foto eu fiz na nossa rua, aqui em Maresias, no caxetal em frente à praia. Peguei um punhado na ponta do dedo só para ver de perto, e é aquele tapete que faz a mágica do lugar: quando a flor branca da caixeta cai lá de cima, ela não afunda. Fica pousada no veludo verde, esperando o sol bater.