Lentilha-d'água
Landoltia punctata
- Grupo
- Plantas
- Fotografias
- 4
Ouvir a história, na voz do autor:
As plantinhas que cobrem toda a água da floresta paludosa (o caixetal) de Maresias se chamam lentilhas-d'água, e são as menores plantas com flor do mundo inteiro. Cada planta tem o tamanho de uma letra desta frase, de dois a quatro milímetros, e mesmo assim é uma planta completa: floresce, dá fruto e dá semente. E a flor, escondida dentro dela, é dez vezes menor do que isso.
São milhares, uma do lado da outra, e cada uma cabe folgada na cabeça de um alfinete. É por isso que, de longe, o caixetal parece coberto por um veludo verde.
Só que o corpo delas não tem folha nem caule. Nada de tronco, nada de galho, nada de raminho. É uma peça verde só, chatinha, boiando, e embaixo dela saem alguns fios finos que ficam pendurados na água. Nessa aqui são de dois a cinco fios. Parece detalhe bobo, mas é justamente isso que separa ela das primas: as outras lentilhas costumam ter um fio só.
Vira uma delas e vem a surpresa: por baixo ela é vermelho-vinho. É o mesmo pigmento que dá cor ao repolho-roxo. Por cima verde, por baixo vinho, e cada uma com pontinhos afundados na pele, que foi de onde veio o nome dela.
E a flor? A flor existe, mas quase ninguém no mundo já viu uma. Ela tem dois décimos de milímetro, fica escondida numa dobra na lateral da planta, e é feita de uma única bolsinha de pólen e um único fiozinho para receber pólen. É a menor flor que a ciência já descreveu. Ela está ali, em cada uma das plantinhas do tapete, bem na sua frente, mas é tão pequena que a olho nu ninguém consegue ver: só com lupa.
Na maior parte do tempo elas nem se dão ao trabalho de florir: uma planta simplesmente brota outra pela lateral, que brota outra, e as filhas ficam grudadas na mãe formando pencas de até seis. É por isso que o tapete fecha tão rápido. Em condições boas, a população dobra em três dias e meio. Você passa numa semana e o que era um punhado virou um lençol.
Peixe e ave da mata alagada comem as lentilhas. E tem estudo mostrando que onde há esse tapete nasce menos larva de mosquito.
Agora, como uma planta que não voa e não anda vai parar noutra lagoa? Pega carona. Ela gruda no pé e na pena das aves que pousam na água. E, num trabalho publicado por pesquisadores brasileiros, apareceu o carona mais simpático de todos: capivaras saindo da água com dezenas de lentilhas grudadas no pelo, levando um pedaço do tapete para a próxima lagoa.
Essa foto eu fiz aqui em Maresias, no caixetal, a floresta paludosa. Peguei um punhado na ponta do dedo só para ver de perto, e é aquele tapete que faz a mágica do lugar: quando a flor branca da caixeta cai lá de cima, ela não afunda. Fica pousada no veludo verde, esperando o sol bater.