Argonauta-comum
Argonauta argo
- Grupo
- Moluscos
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 5
Ouvir a história, na voz do autor:
O nosso encontro com essa espécie incrível foi em agosto, depois de vários dias de ressaca, numa maré baixa. Eu e o Kaian andávamos pelas pedras do Canto do Moreira, aqui em Maresias, quando ele parou e apontou para uma poça entre as pedras: "Olha, um polvo marítimo!" Lá dentro da poça, sozinho, estava um polvo pequeno, do tamanho de uma mão de criança, com o corpo meio fora de uma concha branca, fina como papel, em formato de onda perfeita. O olho era enorme, azul, e a pele era transparente, cheia de pintas roxas. Ficamos os dois impressionados, sem a menor ideia de que espécie era aquela.
Bati as fotos, filmei, e publiquei no iNaturalist, o site onde a gente registra os bichos e as plantas que encontra e outros observadores ajudam a identificar. Eu mesmo comecei chutando uma espécie parecida, e errei. Então o identificador Rafael Rosa chamou outros especialistas em polvos e lulas para dar a opinião. Saryu Mae escreveu que o relevo da concha batia perfeitamente com Argonauta argo e descartava as duas espécies parecidas. Miguel Guerreiro lembrou que existem estudos sobre essa espécie no litoral sul do Brasil, então ela estava dentro da área conhecida. E um outro identificador escreveu a frase mais surpreendente da conversa: era a primeira observação de Argonauta argo no Brasil de que ele tinha notícia. O consenso fechou: o nosso polvo era um argonauta, e ver um inteiro, na areia, é coisa rara.
Depois disso fui pesquisar a fundo essa espécie, e descobri coisas incríveis. A fêmea do argonauta é uma artista: ela esculpe com os próprios braços uma casinha de papel em formato de onda perfeita, branca, com nervuras de um lado ao outro e a borda escura e serrilhada, como se alguém tivesse desenhado. E o que parece uma concha não é concha. Ela não nasce grudada nessa casinha, como um caramujo nasce na concha: ela constrói o estojo, segura com dois braços especiais e mora ali por escolha. É lá dentro que guarda os ovos, protegidos, até os filhotes nascerem. O nosso era uma fêmea: só a fêmea faz a casinha.
Esse bicho intriga os estudiosos há mais de dois mil anos. Aristóteles, na Grécia antiga, já escrevia sobre um polvo que vivia dentro de uma concha e navegava nela. Durante séculos ninguém sabia se ele fabricava a concha ou se roubava a concha de outro animal, como faz o caranguejo ermitão. Quem resolveu a dúvida foi uma naturalista francesa, Jeanne Villepreux-Power, que nos anos 1830 criou argonautas em aquário e viu as fêmeas construírem a concha com os próprios braços.
A casinha é berço e é barco. É barco porque ela usa o estojo para flutuar. Sobe até a superfície, captura um pouquinho de ar dentro da casinha e usa essa bolha para não afundar nem subir demais, como um mergulhador ajustando o colete. Esse truque é raríssimo entre os polvos.
E o macho? É muito menor que a fêmea: ela pode passar de dez centímetros só de corpo, e ele cabe na ponta de um dedo. É um dos casais mais desiguais do mar.
Ela vive no azul aberto, longe do fundo, comendo bichinhos que captura com os braços ágeis. Quando o mar fica bravo, a ressaca às vezes traz um argonauta até a beira da praia, como trouxe o nosso. O vídeo aqui da galeria é desse momento.
Foi assim que uma casinha de papel em formato de onda perfeita atravessou o oceano aberto e chegou até a gente, com a dona dentro.