Araticum-do-brejo
Annona glabra
- Grupo
- Plantas · árvore
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Fotografias
- 4
Existe uma árvore aqui que despacha as filhas de barco. É sério: quando a fruta dela amadurece e cai, não cai no chão, cai na água. E em vez de afundar, ela boia. Vai navegando rio abaixo, atravessa o brejo, e onde encalhar pode nascer uma árvore nova, longe da mãe.
É o araticum-do-brejo, que por aqui também chamam de araticum-da-praia. Ele vive onde quase nenhuma árvore aguenta: pântano, beira de rio, borda de mangue. Aguenta ficar de raiz na água por meses e não reclama nem quando a água é meio salgada.
As flores são grossas, cor de creme, e escondem um segredo: elas recebem besouros como visita. Os estudiosos contam que a flor chega a esquentar um pouquinho por dentro, como quem liga um aquecedor pra deixar os hóspedes confortáveis. O besouro entra, se aquece, se lambuza de pólen e leva ele pra próxima flor.
A fruta parece uma condessa verde, arredondada, que vai amarelando quando amadurece. Dá pra gente comer, mas sendo honesto: é meio sem graça. Essa fruta não foi feita pra nós, foi feita pra bicharada. Aves, peixes e bichos do mato aproveitam, cada um pega a sua, na árvore ou boiando por aí.
Ela carrega no outono e no inverno, quando a mata anda mais econômica, e por isso vira um achado pra quem tem fome nessa época.
Essa foto tem história: a gente estava na praia, aqui em Maresias, e foi o Kaian quem viu primeiro uma fruta dessas boiando na água, igual um barquinho. Estava fazendo exatamente o que a espécie inventou de fazer há muito tempo: viajando.
Agora toda vez que você vir uma fruta boiando, olha pra ela com respeito. Pode ser uma árvore inteira indo embora pra nascer em outro lugar.