Caixeta

Tabebuia cassinoides

Grupo
Plantas · árvore
Onde foi registrada
São Sebastião
Status de conservação
Não avaliada (NE)
Endêmica do Brasil
Sim
Endemismo regional
Sim
Fotografias
12

Essa árvore mora dentro da água. Não é beira de rio, não é terreno que alaga de vez em quando: é brejo mesmo, com o pé na água parada o ano inteiro, e ela fica ali, de pé, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

E não é. Raiz de árvore precisa respirar, e em solo encharcado quase não sobra ar. É por isso que a maioria das árvores não entra nesse terreno: entra e afoga. A caixeta entra, fica, e ainda cresce.

Como quase ninguém disputa aquele lugar com ela, ela toma conta. Num brejo desses, mais da metade das árvores são caixetas, e o lugar acaba ficando com a cara dela. Esse tipo de mata tem nome: floresta paludosa, a mata que vive alagada. Aqui a gente chama pelo nome da dona: caxetal.

Na nossa rua, aqui em Maresias, em frente à praia, tem um desses, e é um lugar mágico. Você entra e o chão não é chão. A água parada fica coberta por um tapete de lentilhas-d'água, plantinhas que cabem na ponta do dedo e boiam aos milhares, tão juntas que a superfície vira um veludo verde. E olha que elas são plantas de verdade, das menores que existem no mundo, com flor e tudo, só que a flor é tão miúda que quase ninguém nunca viu uma.

Os troncos claros saem desse veludo para cima, um do lado do outro, muito juntos, e a luz chega peneirada, deixando tudo numa penumbra verde.

Aí acontece a coisa mais bonita. Entre julho e dezembro a caixeta floresce, as abelhas vêm buscar o que precisam, e as flores brancas vão caindo. Só que elas não afundam: ficam pousadas em cima do tapete, inteiras, viradas para cima. Quando o sol atravessa as copas e bate numa delas, aquela flor branca acende no meio de todo aquele verde. É difícil acreditar que ninguém montou aquilo de propósito.

Depois da flor vem o fruto, comprido e duro, que seca, estoura e solta as sementes, cada uma com uma asa fina que parece papel de seda. Uma parte vai embora no vento. A outra cai na água ali embaixo e sai navegando devagar, até encalhar num canto qualquer, e é dali que nasce a próxima. Uma árvore que usa o próprio quintal alagado como estrada.

E ela só existe aqui. Não é do Brasil inteiro, é dessa faixa estreita de litoral, colada na Mata Atlântica, do Espírito Santo até Santa Catarina. Em nenhum outro lugar do planeta.

O que ameaça a floresta paludosa não é a mata, é o mapa: terreno plano, perto do mar, com vista boa. É o tipo de lugar que dá vontade de aterrar. Cada brejo que vira terra firme leva junto uma floresta que não se refaz em outro canto, porque ela só sabe crescer com o pé molhado.

Quando a gente passar em frente ao caxetal, repara no chão. Se estiver com água, está tudo certo. É assim que ele tem que ser.

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