Tartaruga-da-Flórida

Trachemys scripta

Grupo
Répteis
Onde foi registrada
São Sebastião, Maresias
Status de conservação
Pouco preocupante (LC)
Fotografias
12

Essa tartaruga nem devia estar aqui. A tartaruga-da-Flórida é lá do sul dos Estados Unidos, mas virou o bichinho de aquário mais famoso do mundo, viajou em caixinha pra todo canto, e aí aconteceu o que sempre acontece: gente que enjoou do pet foi soltando em lago, açude e rio. Hoje ela vive solta no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Reconhecer é fácil, principalmente nas jovens: casco esverdeado com linhas amarelas e, na variedade mais vendida, uma mancha vermelha atrás de cada olho, como se usasse um batom no lugar errado.

O programa preferido dela é tomar sol. Sobe em tronco, pedra, e fica horas ali, parada, esquentando o corpo. Não é preguiça: é necessidade. Sem esse banho de sol, ela não consegue nem fazer a digestão direito. Ao menor sinal de perigo, tchibum, mergulha na hora.

Essa foto eu fiz na nossa rua, aqui em Maresias. Ela vinha saindo do caxetal, atravessando o cascalho devagar, e o casco inteiro estava forrado de verde: lentilha-d'água, aquelas plantinhas do tamanho de uma cabeça de alfinete que cobrem a água parada do brejo. Ela saiu de dentro do tapete e levou um pedaço dele grudado nas costas.

E ela nem sabe, mas estava fazendo um serviço de entrega. A lentilha-d'água não voa nem nada: ela anda de carona. Gruda no pé e na pena das aves que pousam na água, e pesquisadores brasileiros já flagraram capivaras saindo da lagoa com o pelo cheio delas, carregando um punhado para o próximo brejo. Era isso ali, na minha frente, sendo feito de casco.

Noutro dia, num lago aqui perto, o Kaian ficou contando quantas estavam empilhadas no mesmo tronco, disputando o melhor lugar ao sol. Parecia fila de banhista em dia de praia cheia.

O cardápio muda com a idade: filhote come bichinho de água e peixinho; adulto vira quase vegetariano, pastando plantas aquáticas e algas. A fêmea sai da água pra desovar, cavando o ninho na terra e deixando dezenas de ovos na estação quente.

Mas a história dela guarda uma lição séria: por ser de fora, ela compete com nossos cágados nativos, brigando pelos mesmos troncos de sol e pela mesma comida. Por isso, se um dia alguém da família tiver uma tartaruguinha em casa e cansar dela, soltar na natureza nunca é a resposta. Bicho de estimação não é pra ser abandonado, nem quando tem casco.

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