Saíra-lagarta

Tangara desmaresti

Grupo
Aves
Onde foi registrada
Itamonte
Status de conservação
Pouco preocupante (LC)
Endêmica do Brasil
Sim
Endemismo regional
Sim
Fotografias
11

O peito da saíra-lagarta brilha como metal polido, um dourado-acobreado que reluz até na luz fraca da floresta. O resto do corpo mistura verdes e azuis, e quanto mais de perto se olha, mais detalhe aparece. É daqueles passarinhos que parecem ter saído de uma joalheria.

E essa joia é exclusiva nossa: a saíra-lagarta só existe no Brasil, e só nas matas dessas serras que acompanham o litoral. O mundo inteiro, se quiser ver uma, tem que vir até aqui. Mas tem que subir: ela é um passarinho de montanha, mora entre 600 e 2.200 metros de altitude, na Serra do Mar, na Mantiqueira e em outras serras do Sudeste. Lá em cima ela é comum, anda em bandos de oito a dez e se mistura com outras saíras nas copas.

Aqui embaixo, na altura do mar, é outra história. Em seis anos de caminhadas eu a vi uma única vez em Maresias, num dia de julho em que uma frente fria estava chegando, com chuva e o frio descendo a serra junto com ela. Em todo o município, o iNaturalist tem um único registro dessa espécie, e foi esse. Quem mora na praia e quiser vê-la sem viajar precisa de sorte e de um dia frio de inverno.

E ela tem um hábito estranhíssimo: agarra formigas vivas com o bico e enfia entre as penas, uma por uma, como quem se esfrega com elas. O nome disso é "formigar-se", e mais de 200 espécies de aves no mundo fazem o mesmo. As formigas escolhidas são as que soltam ácido fórmico quando apertadas, aquele mesmo ácido que arde quando uma formiga nos morde. Ninguém sabe ao certo por quê. A explicação mais aceita é que o ácido mata piolhos, ácaros e fungos que estragam as penas, um remédio de passarinho. Outra é que ela usa a pena pra tirar o ácido da formiga antes de comê-la. E tem quem diga que é simplesmente bom, uma coceira gostosa.

Apesar da pinta de estrela, ela não faz cerimônia nenhuma. Nas casas de serra que colocam bandeja de frutas, é freguesa assídua: chega sem pedir licença e ataca a banana e o mamão na maior intimidade. Lá no alto da Mantiqueira eu a encontrei numa amoreira carregada, com uma amora inteira no bico, maior que a cabeça dela. Realeza no visual, gente como a gente na hora de comer.

E vai pagando o aluguel da floresta: das frutas que come, espalha as sementes, e delas nascem as árvores novas da mata onde ela vive.

Guarda esse nome: saíra-lagarta. Se num dia frio de inverno aparecer um brilho acobreado numa árvore aqui perto, você estará vendo um passarinho que desceu da serra e que existe num único pedaço do planeta. E esse pedaço é o nosso.

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