Orquídea-da-Praia
Epidendrum fulgens
- Grupo
- Plantas · orquídea
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Toque-Toque Grande
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Endêmica do Brasil
- Sim
- Endemismo regional
- Sim
- Fotografias
- 8
Essa orquídea mente. Ela anuncia néctar com cor viva e cara de flor cheia de doce, e não tem néctar nenhum pra entregar. Os pesquisadores foram olhar por dentro da flor procurando a fonte do doce e não acharam.
O truque é ainda mais malandro. Ela cresce lado a lado com duas vizinhas que TÊM néctar de verdade e têm flor parecida com a dela: a oficial-de-sala e o camará, também chamado de chumbinho. As três dão flor no mesmo tom de laranja, na mesma altura, na mesma época. A borboleta aprende que aquele desenho de flor dá doce, chega voando confiante, pousa na orquídea e sai sem nada. Só que sai com o pólen colado no corpo. Trabalho feito, conta não paga. Os cientistas ainda discutem se essa semelhança é imitação de propósito ou coincidência, mas com uma prima dela, lá na América Central, o teste deu claro: perto dessas flores, a visita das borboletas dispara.
E a flor dela é de cabeça pra baixo. Na maioria das orquídeas o labelo, a pétala que serve de pista de pouso, fica embaixo. Nessa aqui ele fica pra cima e ainda vem grudado na estrutura do meio, formando um desenho que lembra uma cruzinha. Vistas de longe, dezenas dessas cruzinhas juntas no alto da haste viram um buquê aceso no meio da areia.
Porque é ali que ela mora: na restinga e na duna, com o pé na areia, o sol inteiro na cabeça e o vento salgado batendo o dia todo. Poucas plantas aguentam esse endereço. Ela não só aguenta como floresce.
A temporada é a mais generosa possível pra quem mora no litoral: setembro, dezembro, janeiro. Primavera e verão, justamente quando a gente está indo pra praia.
Essa foi no Toque-Toque Grande, e foi o Kaian quem viu primeiro. Ele apontou o monte laranja no meio do mato baixo antes de mim.
Uma orquídea que vive de fama alheia, na areia, no sol, sem pagar ninguém. E funciona.