Véu-de-noiva
Rodriguezia bracteata
- Grupo
- Plantas · orquídea
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Camburí
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Endêmica do Brasil
- Sim
- Fotografias
- 11
Essa orquídea foi batizada pelo próprio perfume. Em 1837, em Londres, o botânico John Lindley recebeu os desenhos de plantas brasileiras feitos por Jean-Théodore Descourtilz, um francês que passou a vida pintando aves e flores do Brasil, e deu a ela o nome de Burlingtonia fragrans, a perfumada. Escreveu que ela vivia nos galhos mais altos dos cedros e perfumava as florestas do Brasil com um cheiro muito parecido com junquilho, que é uma flor amarela de jardim com perfume tão forte que na França ela é plantada só para fazer perfume. Os desenhos vinham de Macaé, de Nova Friburgo e de Bananal, no alto do Vale do Paraíba, do outro lado desta serra.
Só que um frade tinha chegado antes. Entre 1783 e 1790, Frei Vellozo, franciscano do Rio de Janeiro, andou a Serra do Mar inteira em direção a Santos, passando por Paraty, e desenhou essa mesma orquídea para a Flora Fluminense, que só foi impressa em 1831, vinte anos depois da morte dele. Na botânica o nome mais antigo vence, e por isso hoje ela se chama Rodriguezia bracteata, por causa da folhinha que abraça cada flor na haste. O perfume saiu do nome. Da flor, não.
De perto, a flor é branca de ponta a ponta, com uns quatro centímetros, e a pétala de baixo, a que serve de pista de pouso para o inseto, tem duas listras douradas que apontam para dentro da flor, como placa de sinalização. Numa prima dela do Nordeste, a única do grupo que já foi estudada de perto, essa mancha dourada imita um montinho de pólen, e o néctar de verdade fica escondido num tubinho na base da flor, e é pouco: uma gota por dia. A flor promete muito, entrega um pouco, e o visitante sai com o pólen grudado nas costas, que é o que a planta queria. Não sei se com a véu-de-noiva é igual, mas a mancha dourada está lá, nas minhas fotos, em todas as flores.
Ela floresce na primavera. Nos registros de todo o Brasil, o mês forte é novembro, com outubro, dezembro e janeiro logo atrás. A haste nasce arqueada e desce carregada de flores, um véu mesmo, e por isso o nome popular. As minhas fotos de Camburí são de dezembro de 2021, em plena estação: ela estava num galho baixo, na altura do rosto, e o galho inteiro era um tapete de musgo encharcado, com gotas penduradas nas folhas. Em agosto de 2026, em Cananéia, encontrei outra florida em cima de um tronco, no sol, fora de época: no iNaturalist só existem dois registros dela florida em agosto no país inteiro, e um é esse.
Ela mora em cima de outra árvore, mas não tira nada dela: as raízes finas se colam na casca e bebem a chuva e a neblina. Só existe no Brasil, na Mata Atlântica, e prefere a floresta úmida de encosta, a mesma que cobre a serra atrás da praia.
Cento e noventa anos depois de Lindley escrever sobre o cheiro de junquilho, a orquídea continua nos galhos, perfumando a mesma serra. Mudou o nome. O perfume, ninguém conseguiu mudar nem descrever.
Fontes: o texto original de Lindley, Edwards's Botanical Register, 1837, os nomes antigos da espécie no GBIF, a espécie na Flora e Funga do Brasil, o estudo da prima Rodriguezia bahiensis, Carvalho e Machado, 2006, Frei Vellozo na Wikipédia, Descourtilz na Wikipédia, a observação de Camburí e a de Cananéia no iNaturalist.