Perereca-de-olhos-dourados-do-Rio
Trachycephalus imitatrix
- Grupo
- Anfíbios
- Onde foi registrada
- Queluz
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Endemismo regional
- Sim
- Fotografias
- 12
Foi numa tarde de fevereiro de 2026, em Queluz, no alto do Vale do Paraíba, a mil metros de altitude, no meio da mata. Tinha chovido a semana inteira, e naquele dia a chuva deu trégua. Numa poça rasa entre as pedras, com folhas secas boiando e um limo amarelo-esverdeado no fundo, estava uma perereca que eu nunca tinha visto: o dorso cor de caramelo, com uma faixa clara de cada lado e pontinhos escuros, as pernas listradas de marrom e verde-oliva, e os olhos pretos com um desenho amarelo-esverdeado. Ela parecia feita das cores daquele lugar, da pedra, da folha seca e do limo. Foi um impacto. Depois ela estava agarrada numa rocha de granito, parada, e eu fotografei de perto. Deixei que seguisse.
Eu conhecia bem a prima dela, a perereca-grudenta, que aparece na rua de casa em Maresias e que tenho fotografada dezenas de vezes. Esta era outra coisa, mais fina, mais desenhada, mais bonita. Publiquei no iNaturalist naquela mesma tarde sem conseguir passar da família, e fiquei sem sossego. Na manhã seguinte, cedo, mandei as fotos e um vídeo por e-mail para o Germano Woehl Junior, um dos dirigentes do Instituto Rã-bugio, em Santa Catarina, pesquisador aposentado que passou 34 anos em São José dos Campos e acampou pela Mantiqueira nos anos 1980 e 1990. Ele respondeu no mesmo dia: a espécie ocorre no litoral norte de Santa Catarina, mas ele nunca tinha tido a sorte de encontrar uma. "É linda", escreveu, comparada com a espécie comum que ele tem em casa. Pelo iNaturalist a resposta chegou também: o Enrico Tosto levou ao gênero, e o Gabriel Teixeira, herpetólogo, fechou o nome, com um aviso: espécie rara, pouco registrada, muito confundida com a perereca-grudenta, e que só vive em floresta bem preservada.
O nome dela é Trachycephalus imitatrix, "a imitadora", descrita em 1926 por Alípio de Miranda-Ribeiro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, a partir de dois exemplares de Teresópolis, na Serra dos Órgãos. Ele explicou o nome numa linha: a coloração dela imita a de uma perereca-leiteira do Equador, que tem o mesmo desenho nas costas, um grande quadrilátero que vai dos olhos ao sacro, traçado por uma linha preta debruada de branco. É exatamente o desenho que aparece nas minhas fotos. Ela vive em São Paulo, no sul de Minas, no Rio de Janeiro e no norte de Santa Catarina, onde o Instituto Rã-bugio a registra desde 2016. Os registros mais ao sul e na Argentina são hoje atribuídos a uma espécie irmã, descrita em 2008, e essa divisão ainda é discutida entre os pesquisadores. E prefere a mata de altitude: as coletas mais próximas de Queluz são da Serra da Bocaina, nos anos 1960 e 1970, a 1.600 metros. No mundo inteiro, o iNaturalist tem 18 observações dela, e a minha é uma. Nos bancos de dados científicos, somando tudo desde 1926, são 96 registros, e dois terços deles são exemplares de museu. A perereca-grudenta, a prima comum, tem 854 observações no mesmo site.
Ela é da turma das pererecas-leiteiras, e a família guarda um truque famoso: quando um predador tenta agarrá-las, elas soltam uma secreção branca e pegajosa, que gruda e desanima quem mordeu. Dedos com ventosas de escaladora, dias parados na vegetação, noites caçando entre as folhas. Nas noites de chuva os machos cantam nos galhos debruçados sobre poças de floresta, e é nessa água parada que os girinos crescem. A minha estava numa poça rasa entre pedras, numa tarde depois de uma semana de chuva. Se era o fim de uma noite de canto ou só um banho, não sei.
Se um dia a mata te der esse presente, faça o que eu fiz: fotografe, registre e deixe onde está. Ela é feita das cores do lugar, e é lá que ela precisa ficar.
Fontes: a observação no iNaturalist, com as identificações, a descrição original de Miranda-Ribeiro, 1926, na página 77 dos Archivos do Museu Nacional, a ficha da espécie no catálogo Amphibian Species of the World, a espécie no GBIF, a ficha da prima comum no Instituto Rã-bugio e a espécie na Wikipédia.