Príncipe
Pyrocephalus rubinus
- Grupo
- Aves
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Fotografias
- 25
Na época de conquistar a namorada, o príncipe sobe uns vinte, trinta metros no céu e fica batendo as asas devagar, flutuando feito uma borboleta vermelha, cantando lá do alto. É o jeito dele de dizer: olha eu aqui. Poucos passarinhos fazem um show desses.
Só que eu nunca vi isso aqui. Aqui em Maresias eu encontro o príncipe sempre no mesmo tipo de lugar, terreno grande de campo aberto, e sempre no mesmo tipo de poleiro, fio de luz, galho seco, pedra alta, ponta de pau espetada no capim. Ele escolhe um ponto alto, fica parado de olho, e quando um inseto passa voando ele dispara, pega no ar e volta para o mesmo poleiro, como se nunca tivesse saído. Repete sem se cansar, sempre do mesmo ponto. Fio de luz, para ele, é cadeira de pescaria.
A explicação para essas duas cenas tão diferentes é simples: o voo de conquista é coisa de quem vai fazer ninho, e ele não faz ninho aqui. Fui olhar o calendário dos registros e a conta fecha. Em todo o estado de São Paulo ele aparece de abril a setembro e some de outubro a março. No verão inteiro, quando tudo aqui está cheio de passarinho criando filhote, ele não existe na região. Minhas fotos dizem a mesma coisa, e ainda guardam o calendário na cor da ave: nas de abril e maio, logo depois da viagem, o vermelho aparece manchado, riscado de escuro, um vermelho sujo de estrada; nas de agosto e setembro, às vésperas de descer, ele está inteiro.
Ele vem do sul. Onde essa espécie nasce e cria filhote é nos campos abertos da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul, e é lá que ele passa o verão, de outubro a janeiro. É lá que ele faz o voo de borboleta vermelha. Os dois calendários são espelho um do outro: nos meses em que a Argentina fica praticamente sem príncipe, maio, junho e julho, é quando ele enche o interior e o litoral de São Paulo, e quando chega a primavera e o número lá embaixo estoura, aqui começa a cair. Setembro é o único mês em que os dois lados estão cheios ao mesmo tempo, porque é o mês da travessia.
A subida é para o oeste e o noroeste, pelo miolo do continente: Pantanal, Cerrado de Mato Grosso, de Goiás e de Minas, sul da Amazônia, Bolívia e leste do Peru. O Nordeste fica fora da rota. No Ceará, em Pernambuco e no Maranhão não há um registro sequer dessa espécie, e na Bahia são pouquíssimos, mesmo com muita gente fotografando ave por lá. Maresias é quase o ponto mais a leste onde ele aparece todo ano.
E aí acontece uma coisa bonita com o nome dele. No extremo sul do Brasil, onde ele chega para namorar e criar filhote, o povo o chama de verão, porque é quando ele está lá. No Pantanal, onde ele passa o inverno, o nome é são-joãozinho, porque é junho que ele enfeita. Também é sangue-de-boi no sul e em Mato Grosso, coração-de-boi em Minas, mãe-do-sol no interior de São Paulo e barão-do-melgaço na região pantaneira. Quase todos falam do vermelho, que é o que salta aos olhos: o macho é vermelho vivo da cabeça à barriga, com uma máscara escura no rosto e as asas escuras, e no sol esse vermelho parece que acende. A fêmea é o oposto, parda, discreta, de peito claro, às vezes com um tom canela. Lado a lado nem parecem do mesmo time, mas são. O nome científico fala a mesma língua dos apelidos: cabeça cor de chama, cor de rubi.
E príncipe, de onde saiu? Essa foi a primeira coisa que eu quis saber, e a resposta é que ninguém registrou. Fui atrás nos livros antigos e encontrei melhor do que uma explicação: em 1940, no maior dicionário de animais do Brasil da época, Rodolpho von Ihering escreveu que essa ave não tinha nome conhecido por aqui. As palavras são dele: é curioso que nem em São Paulo nem na Amazônia este pássaro, rival do tico-tico-rei pelo colorido, tenha merecido nome que se tornasse vulgarmente conhecido. O verbete está na letra M, porque o nome que ele usa é outro, o gaúcho: miguim. Quer dizer que o passarinho mais vermelho do campo passou séculos sem nome no Sudeste, e o título de príncipe é coisa recente, que ninguém sabe quem deu.
O mesmo verbete de 1940 guarda outra surpresa. Muito antes de existir aplicativo de registro, ele já tinha a viagem inteira medida a olho: como mostram as cores vivas da plumagem, escreveu, o miguim é pássaro do sol, e por isso foge do frio, e de maio a outubro desaparece do Sul do Brasil, emigrando para a região tropical, onde não há inverno. É exatamente a curva que os registros de hoje desenham. E ele conta que no Rio Grande do Sul saudava com prazer o reaparecimento dos primeiros miguins, que anunciavam o fim da estação das geadas. Lá ele é a chegada do calor. Aqui ele é o contrário: chega com o frio e vai embora quando esquenta.
Tem uma parte da história que ninguém conta ainda, e essa nem os livros antigos resolvem: a biologia reprodutiva da espécie é praticamente desconhecida, e quase tudo que se sabe sobre o ninho vem de um parente que vive no hemisfério norte. Não dá para dizer se os filhotes descem junto com os pais ou se cada um faz a viagem por conta. Se você vir um pontinho vermelho parado num fio ou num pau seco no meio do capim nesta semana, pare o carro e olhe com calma. Ele passou o inverno inteiro aqui, em outubro some, e o show de subir no céu batendo as asas ele vai guardar para fazer a mil e tantos quilômetros daqui.
Fontes: Rodolpho von Ihering, Dicionário dos animais do Brasil (1940), verbete miguim, para o nome gaúcho, a ausência de nome no Sudeste e a descrição da migração; WikiAves para os demais nomes populares por região e para a distribuição no Brasil; Canassa, Migração austral do príncipe Pyrocephalus rubinus, uma avaliação através da ciência cidadã (Universidade Estadual Paulista, Rio Claro), e o artigo derivado, Unveiling the migratory patterns of scarlet flycatchers using citizen science databases, que reuniu 40.837 registros do eBird e do WikiAves; curvas mensais por estado e por país medidas nos registros verificáveis do iNaturalist.