Clusia
Clusia
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Quase toda flor paga suas visitas com docinho, o néctar. Essas aqui pagam com cola. As flores desse grupo de plantas oferecem resina, uma espécie de cola natural, e as abelhas vêm buscar exatamente isso: raspam a resina, fazem bolinhas e levam embora pra construir e consertar o ninho.
É um pagamento raríssimo. No mundo inteiro das flores, pouquíssimos grupos de plantas tiveram essa ideia de pagar o pedreiro em vez de pagar o guloso. Enquanto a abelha coleta o material de construção, vai encostando no pólen e carrega ele de flor em flor, sem perceber que está trabalhando pra planta também.
As folhas delas são outra marca registrada: grossas, duras, lustrosas, parecendo recortadas de couro verde. Tem gente que planta essas espécies em vasos e cercas-vivas justamente por essa folhagem forte, que aguenta desaforo.
E a generosidade continua depois da flor. No verão, os frutos se abrem e mostram sementes vestidas com uma capinha colorida e carnuda, que é justamente o petisco que as saíras e os sanhaços vieram buscar. Ave come a capinha, engole a semente, e vai semeando por onde voa.
A da foto cruzou meu caminho numa viagem por Queluz, lá pra banda da serra, e foi justamente a folha que me fez parar: aquele couro verde, grosso e lustroso, entrega a família de longe. Fica a lição que esse grupo ensina: na natureza tem espaço pra todo tipo de troca. Até flor que paga em material de construção encontra freguês fiel.