Saracura-três-potes
Aramides cajaneus
- Grupo
- Aves
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Pouco preocupante (LC)
- Fotografias
- 9
O casal dessa ave canta junto, em dueto, e o povo jura que eles dizem "três potes, três potes". O canto é grave, alto, ecoa pelo brejo no amanhecer e no fim da tarde, e às vezes os vizinhos entram no coro, virando uma cantoria de várias saracuras ao mesmo tempo. Foi desse canto que nasceu o nome: saracura-três-potes. Em cada canto do Brasil o ouvido do povo entendeu uma coisa, e por isso ela coleciona apelidos.
E ela tem outra mania curiosa pra uma ave: quase não voa. Quando se assusta, prefere correr, e correr bem. Se esgueira entre raízes e capinzais com uma agilidade impressionante, as pernas compridas e vermelhas trabalhando, e some na vegetação antes que você entenda o que viu.
De aparência, é um capricho: um capuz cinza cobrindo a cabeça e o pescoço, o dorso esverdeado, os flancos castanho-avermelhados, o bico amarelo-esverdeado e as tais pernas vermelhas. Mesmo na sombra do brejo, as cores saltam.
Ela vive onde tem água e lama: brejo, beira de rio, banhado e mangue. Essa foto eu fiz em Cananéia, terra de manguezais, onde vive inclusive uma forma especial dela, criada ali entre as raízes do mangue.
O dia a dia é revirar folha e lama com o bico, catando caranguejinhos, insetos, peixinhos e frutas caídas. E em lugares com movimento de gente, ela pode ficar surpreendentemente confiante, aparecendo nas trilhas nas primeiras horas da manhã, como quem confere quem chegou.
Os filhotes dela nascem prontos pra vida: mal saem do ovo e já acompanham os pais pelo brejo, uns novelinhos escuros correndo atrás da família.
Um dia, perto de um brejo, fica em silêncio no fim da tarde. Se ouvir duas vozes graves cantando "três potes" em dupla, sorri: é um casal afinado há muito tempo.