Mamangava-do-toco

Xylocopa frontalis

Grupo
Insetos
Onde foi registrada
São Sebastião, Maresias
Fotografias
4

Essa abelha atravessa o mar. Pesquisadores capturaram quarenta e uma delas aqui em São Sebastião, no Pontal da Cruz e na praia do Arrastão, compararam o material genético com o das abelhas de Ilhabela e da Ilha dos Búzios e descobriram que é tudo a mesma população. Ou seja: elas cruzam pelo menos oito quilômetros de mar aberto, de ida e de volta, e não são só as fêmeas, os machos também fazem a travessia.

Ela é grande, chega a três centímetros e meio, é preta e peluda, e tem um zumbido grave que se ouve antes de ver. A fêmea é preta inteira, às vezes com faixas cor de ferrugem nos primeiros anéis da barriga. O macho é o contrário, quase todo alaranjado. São tão diferentes que parecem duas espécies.

O nome de carpinteira é literal: a fêmea abre a própria casa dentro de um pau seco, roendo a madeira com as mandíbulas e jogando a serragem para fora. Ela escolhe madeira morta e macia, e prefere a que está exposta ao sol e à chuva, não a que está protegida.

Dentro do tronco ela faz um corredor de uns dez centímetros e, a partir de uma câmara central, abre galerias em direções alternadas. Em cada uma enfileira duas ou três câmaras, cada uma com uma bola de pólen e um ovo, separadas por paredinhas de serragem colada. De ovo a abelha adulta leva perto de cinquenta dias. E o ninho às vezes não se desfaz quando as filhas nascem: elas podem ficar, e mãe e filhas dividem a casa, limpando, guardando a entrada e alimentando a geração seguinte.

Ela é a abelha do maracujá, e isso não é força de expressão. A flor do maracujá não se fecunda sozinha, precisa de pólen de outra planta, e só funciona se as costas de quem visita encostarem na parte certa da flor. A abelha europeia é pequena demais para isso, passa por baixo e ainda leva o pólen embora antes mesmo de a flor abrir, o que atrapalha de verdade. A mamangava é do tamanho da flor: ela roda em volta para beber o néctar e sai com as costas carregadas. Em pomar, colocar de quatro a oito ninhos por hectare chegou a aumentar a produção em metade, com fruta mais pesada e mais doce.

Tem flor que não entrega o pólen de graça, guarda tudo dentro da antera e só solta por um furinho. Contra essas ela usa música: abraça a flor e vibra o corpo até cair uma nuvem de pólen que gruda nela inteira. Alguém já mediu essa vibração, e ela sai em torno de duzentos e vinte batidas por segundo, o dobro da frequência da asa dela em voo. E o mais bonito é que ela afina: em duas espécies de flor parecidas, mediram a mesma abelha vibrando em alturas diferentes, uma para cada.

E quando a flor é funda demais para o corpo dela, ela não desiste nem entra pela porta. Pousa em cima, corta uma fenda de meio centímetro bem em cima da câmara de néctar e bebe direto, numa visita que dura dois ou três segundos. Foi assim que eu a vi pela primeira vez, em 2021, pendurada de lado numa flor rosa. Em certas árvores ela nunca foi vista entrando pelo caminho certo, só por esse atalho. E é a mesma abelha que, no maracujá, faz tudo certo. Depende da flor, não do caráter.

Ferroa? A fêmea sim, o macho não tem ferrão nenhum, e é justamente ele quem costuma ficar zumbindo perto das pessoas. Ela só usa o ferrão se for agarrada. Em mais de dois séculos de registro existe um único caso de morte por picada de abelha carpinteira no mundo inteiro, de outra espécie, do outro lado do planeta. Contra formiga e contra outra abelha que chega perto do ninho ela nem usa ferrão: dá cabeçada, faz barulho vibrando as asas e, se o intruso insiste, defeca na direção dele.

Encontrei essa duas vezes, com cinco anos de diferença, as duas aqui em Maresias. Na primeira ela estava viva, furando a flor. Nas fotos desta página, de 2026, ela está morta, caída na areia. Isso também tem explicação: no fim do ciclo anual essas abelhas morrem, e há registro de adultos encontrados no chão perto dos ninhos, sem nada de errado além do tempo.

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