Mexilhão

Perna

Grupo
Moluscos
Fotografias
2

Essa concha tem duas caras. Por fora é marrom-arroxeada, riscada de anéis de crescimento, gasta de tanto apanhar de onda e de areia. Você vira ela e do outro lado está um arco-íris inteiro, azul, verde, rosa e dourado, brilhando na luz. As duas fotos são a mesma valva, só que virada.

Esse brilho não é tinta. O lado de dentro da concha é feito de camadas de mineral empilhadas como um baralho, cada uma com meio milésimo de milímetro de espessura, coladas por folhas de proteína vinte vezes mais finas ainda. Acontece que essa espessura é mais ou menos do tamanho da própria onda de luz que bate ali. A luz entra, ricocheteia entre as camadas, e umas cores se somam enquanto outras se apagam. O que sai é essa cor que muda quando você mexe a concha, porque ela não vem do material, vem do jeito como o material está empilhado.

Isso tem nome antigo: madrepérola. E o nome entrega o parentesco. Quando entra alguma coisa incômoda dentro da concha, um grão, um parasita, o animal começa a cobrir aquilo com essas mesmas camadas, uma sobre a outra. Pérola é madrepérola enrolada em volta de um aborrecimento.

Por fora, a vida dele é outra. O mexilhão vive grudado na pedra do costão, onde a onda bate com força, e o que o segura ali é um tufo de fios que ele fabrica no próprio pé, a barba da concha. Não é pouca coisa: fabricar esses fios consome de oito a quinze por cento de toda a energia que ele gasta no mês. Para arrancar um mexilhão de quatro centímetros da pedra é preciso quase dez quilos de força. E ele regula: quando o mar fica bravo, ele faz mais fios e mais grossos.

Agora, o pulo do gato. Essa cola funciona debaixo d'água, que é justamente o que nenhuma cola nossa faz direito. Cola de cirurgia precisa de campo seco para pegar, e isso limita o que dá para operar. Pesquisadores copiaram a química do mexilhão e fizeram um adesivo que gruda em tecido molhado várias vezes melhor que a cola cirúrgica em uso, e que fechou ferida em rato sem um único ponto.

Segurar-se custa caro, e o preço aparece na conta. Nos meses em que ele está mais firme na pedra é quando produz menos filhotes. O orçamento é o mesmo, e ele escolhe: ou se segura, ou se reproduz.

Para comer, ele peneira a água. Mais de trezentos mililitros por hora passam por dentro dele, e ele retém o que interessa. É por isso que virou sentinela: o que está diluído na água vai se acumulando no corpo dele, às vezes milhares de vezes mais concentrado do que estava lá fora. Existem programas que monitoram a poluição da costa justamente lendo o corpo dos mexilhões.

E o começo da vida dele tem um detalhe que quase ninguém conta. A larva não se fixa de uma vez. Ela nada, rasteja, experimenta, e prende primeiro num substrato fininho, tipo fio. Só depois ela solta e migra para uma superfície dura, onde então se fixa de verdade. São duas mudanças antes de escolher o endereço definitivo.

Essa valva eu encontrei solta na areia de Caraguatatuba, em setembro. O nome dela parou no gênero, e tem motivo: nos mexilhões desse grupo a cor da concha não diz a espécie, porque o mesmo mexilhão vai do marrom ao verde-azulado. As duas coisas que separam de verdade uma espécie da outra são umas franjinhas na borda do manto, que só dá para ver no animal vivo, e o desenho de uma linha na face de dentro. Ou seja: a resposta estava justamente no lado bonito.

Mexilhão (Perna), moluscos, fotografado em Caraguatatuba Mexilhão (Perna), moluscos, fotografado em Caraguatatuba

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