Caramujo-surfista-alongado

Janthina umbilicata

Grupo
Moluscos
Onde foi registrada
São Sebastião
Status de conservação
Não avaliada (NE)
Fotografias
5

Um dia, depois de uma ressaca com vento forte do mar, a areia de Maresias amanheceu salpicada de conchinhas roxas, num tom de violeta que parecia pintado. Eu nunca tinha visto aquilo. Fui pesquisar, e a história por trás delas é uma das mais estranhas do mar.

Esse caramujo mora numa jangada de bolhas fabricada por ele mesmo. Ele solta um muco, uma espécie de baba, envolve bolhinhas de ar com ela e vai grudando uma na outra até formar uma balsa que boia. Aí se pendura embaixo dela, de cabeça pra baixo, e sai navegando pelo mar afora, pra onde o vento e a correnteza levarem.

Ele não sabe nadar. Se perder a jangada, afunda, e no fundo não sobrevive. A vida inteira dele acontece pendurada naquela balsa: é ali que come, cresce e até cuida dos filhos. A mãe gruda os ovinhos na própria jangada e carrega o berçário junto, flutuando.

E o que ele come lá no meio do mar? Outros bichos que também vivem boiando na superfície, como as caravelinhas de vela, aqueles bichos azuis que às vezes aparecem na praia. Eles queimam, mas o caramujo roxo não se importa: pra ele, é almoço. E ele tem uma arma: quando é incomodado, solta uma tinta roxa na água, do mesmo tom da concha, que serve pra confundir quem quer comê-lo e, segundo os estudos, pra amansar a presa. A tinta sai azul-escura e vira violeta em contato com a água do mar.

A concha é uma delicadeza: fininha, leve, num tom de violeta que parece pintado. Precisa ser leve assim, senão a jangada não aguenta o peso. E o roxo tem uma sacada: a parte que fica virada pra cima é mais escura, pra se misturar com o mar visto de cima, e a de baixo é mais clara, pra sumir contra o céu visto de baixo.

Foi pesquisando esse roxo que descobri a parte mais surpreendente. Existe um primo dele, um caramujo das pedras do litoral do México, que solta uma tinta parecida, e os povos mixtecos usam essa tinta há séculos pra tingir tecido: apertam o bicho com cuidado, recolhem o líquido e devolvem o caramujo vivo pra pedra. Nos anos 1980 uma empresa descobriu o negócio, contratou gente sem esse cuidado e matou os caramujos aos milhares pra fazer corante. A espécie quase desapareceu. Hoje ela é protegida por lei no México e só os tintureiros mixtecos de uma aldeia podem colher a tinta, do jeito antigo, sem matar. O nosso navegante de Maresias nunca passou por isso: ninguém tinge tecido com ele. Mas o roxo que ele carrega é do mesmo mundo.

Depois de um dia de vento sul, vale caminhar na linha que as ondas deixam na areia. Se aparecer um roxo diferente de tudo, você achou o dono da jangada de bolhas.

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