Pericopina
Pericopina
- Grupo
- Insetos
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Fotografias
- 3
Você olha e jura que são borboletas. Não são. São mariposas que resolveram viver de dia, e que se vestiram tão bem que enganam qualquer um. Enquanto quase toda mariposa espera a noite, essas aqui voam no sol aberto, com as asas pintadas de cores fortes, algumas até com janelinhas transparentes no meio.
E a cor não é enfeite, é aviso. Muitas dessas mariposas guardam no corpo um gosto horrível, uma substância amarga que elas tiraram das plantas que comeram quando ainda eram lagartas. O pássaro que tenta uma, e passa mal, nunca mais esquece aquele desenho. As cores berrantes são um recado escrito no ar: pode olhar, mas não vale a pena comer.
O truque fica ainda melhor. Muitas delas copiam o visual de borboletas de verdade que também são intragáveis. É um clube do mesmo uniforme: quanto mais bichos parecidos e ruins de comer voando por aí, mais rápido os predadores aprendem a lição, e todo mundo do clube sai ganhando.
Foi com um bando delas que eu vivi um dos momentos mais bonitos da minha vida na mata.
Eu estava sozinho, ao pé da cachoeira, aqui em Maresias. A juçara estava florida, e as flores da palmeira chamam gente pequena de longe. De repente o ar se encheu de asas girando juntas, um bando inteiro dançando em volta da floração, cores misturadas ao verde, tudo no ritmo do barulho da água.
Existe uma palavra antiga pra isso: panapaná. Vem do tupi, da repetição de paná, que quer dizer bater. É o bater das asas virando nome. Panapaná é como se chama um bando de borboletas voando junto, e foi exatamente isso que apareceu na minha frente naquele dia.
Naquele dia eu escrevi isto:
> Hoje, na mata silente, um segredo me foi dado.
> Sozinho, ao pé da cachoeira, onde o tempo é abraçado,
> ouvi o canto das águas, e vi um panapaná dançar, em voo sincronizado.
> Na floração da Juçara, as borboletas a bailar.
> Cores mescladas ao verde, em um espetáculo sem par,
> foi como se a própria mata viesse a mim falar:
> "Estás em casa, meu filho, este é teu lugar."
Guarda esse nome, panapaná, e guarda essa ideia junto: às vezes a mata não fala com palavra nenhuma, e mesmo assim a gente entende tudo.