Capitão-do-mato
Morpho helenor
- Grupo
- Insetos · borboleta
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 25
O azul dessa borboleta não é tinta. Se você moesse a asa dela até virar pó, o pó sairia marrom. O que existe na asa são escaminhas empilhadas em camadas, tão pequenas que só aparecem no microscópio. A luz bate nessas camadas, volta várias vezes e, no caminho de volta, só o azul sobrevive. Por isso a cor muda conforme o ângulo, brilha como metal e acende quando ela vira no sol. É azul de estrutura, não de pigmento, e é o mesmo truque da bolha de sabão.
Aí está a mágica: quando ela fecha as asas, o azul some por completo. O lado de baixo é marrom de folha seca, com uma fileira de olhos redondos desenhados na borda. Ela voa dando aquele pisca-pisca azul e, no instante em que pousa e fecha, desaparece. Quem estava seguindo o brilho perde a borboleta de vista.
Quase todo mundo chama essa borboleta de borboleta azul, e para ao dizer isso. Mas ela tem nome próprio aqui no Brasil, e é um nome estranho para uma borboleta: capitão-do-mato.
A explicação está no jeito dela voar. Ela não anda à toa pela mata: escolhe uma trilha, uma estrada de terra, a beira de um córrego, e patrulha aquele mesmo trecho todo dia, indo e voltando pela mesma linha, sempre no mesmo horário. Quem batizou olhou para esse vaivém e lembrou do capitão do mato, o homem pago, no tempo da escravidão, para percorrer as trilhas atrás das pessoas que fugiam do cativeiro. A borboleta é linda, e o nome que ela carrega é uma lembrança pesada da nossa história.
O nome científico do grupo dela é Morpho, palavra grega que quer dizer forma, a mesma raiz de Morfeu, o deus dos sonhos, que aparecia para as pessoas mudando de forma. Combina com uma borboleta que é azul de um lado e folha seca do outro.
Flor não interessa para ela. Come fruta caída e passada do ponto, fermentando no chão da mata. Quando a pitangueira começa a largar fruta madura, o chão embaixo vira restaurante, e é comum a borboleta-coruja descer para a mesma pitanga, as duas comendo lado a lado.
Fotografei em 13 de julho de 2021, em Maresias, com ela pousada num prato de frutas cortadas, tomando o suco da laranja e do mamão. Em 25 de julho do mesmo ano encontrei outra no chão de pedra britada, abrindo e fechando as asas ao sol, e em 1º de julho de 2022 mais uma, aberta sobre uma folha verde, com o azul inteiro à mostra.
Os tupis que viviam aqui tinham um nome só para todas elas: panã. Está registrado num vocabulário da língua deles terminado em 1622, em Piratininga, onde hoje é São Paulo, numa linha de duas palavras: borboleta, panâma. E, na parte que ensina a dizer que uma coisa virou outra, o exemplo escolhido foi justamente este: panâma onhemoguira, a borboleta tornou-se em pássaro.
Se um risco azul cruzar a trilha e sumir de repente, não ache que ela foi embora. Espere um pouco no mesmo lugar: ela patrulha, e quem patrulha volta.
Fontes: Borboletas Morpho parecem desaparecer graças ao azul iridescente (revista Pesquisa FAPESP); Morpho helenor, Wikipedia, hábitos e distribuição; registros do nome popular capitão-do-mato em Jardim do Biólogo e no Borboletário; iNaturalist e BioDiversity4All, nome popular da espécie; Vocabulário na Língua Brasílica, manuscrito de 1622 feito em Piratininga, edição de Carlos Drumond (1952 e 1953), entradas Borboleta e Tornar-se.