Borboleta-amarela
Phoebis argante
- Grupo
- Insetos · borboleta
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 21
Essa borboleta bebe o doce das flores e, mesmo assim, desce ao chão para lamber barro.
O néctar é quase só açúcar e água, e falta nele uma coisa de que o corpo precisa: sal. Por isso ela desce para o chão molhado, a areia úmida e a beira de poça, estica a tromba e fica ali, sugando a água suja. Quem faz isso são quase sempre os machos, e o sal que eles tiram dali serve para a reprodução. As fêmeas ficam mais nas flores.
O amarelo das asas dela é feito com o que o corpo ia jogar fora. Todo animal precisa se livrar do resto do nitrogênio que sobra da comida, e nós fazemos isso pelo xixi. As borboletas dessa família guardam esse resto e transformam em tinta para as asas. Esses pigmentos foram descobertos justamente aqui, nas asas de borboletas amarelas e brancas como esta, e por isso ganharam o nome de pterinas, que vem da palavra asa em grego.
O apelido dela é motivo de confusão honesta: por aqui as borboletas amarelas são chamadas de borboleta-amarela, borboleta-gema ou borboleta-de-bando, e o mesmo nome serve para três ou quatro espécies parecidas. Para separar no olho, vale reparar em duas coisas. Se a asa de cima tiver uma faixa laranja forte atravessando, é a prima maior. Se o amarelo for pálido, quase branco, é outra prima. Esta aqui é amarelo cheio, cor de gema mesmo, sem faixa, e mostra pontinhos escuros e um risco fino quando fecha as asas.
O nome de bando não é à toa. Em Brasília, pesquisadores acompanharam por oito anos seguidos as revoadas das borboletas dessa família e viram que elas se repetem todo ano, na mesma época e sempre na mesma direção, mesmo quando o vento sopra contra. Elas não estão passeando, estão indo para algum lugar.
A lagarta come folha de ingá e de cássias, árvores da mesma família do feijão, que dão vagem e nascem em qualquer beira de estrada aqui. Onde tem ingá brotando folha nova, é lugar de procurar por ela.
Fotografei em 21 de março de 2021, em Maresias, quando uma delas desceu no piso e ficou tempo bastante para oito fotos, abrindo e fechando as asas. Em 4 de abril de 2022 encontrei outra na flor vermelha do hibisco, em 19 de setembro de 2022 uma na Paúba, pousada numa folha larga, e em 17 de julho de 2023 mais uma.
As duas últimas fotos, de 29 de agosto de 2026, mostram uma de asas fechadas numa flor laranja, no meio do capim alto. Essas são do tipo que os estudiosos separam com um segundo sobrenome, Phoebis argante argante, que é o nome dado à forma que vive aqui na nossa parte do continente.
Se encontrar uma borboleta amarela parada num pedaço de chão molhado e ela não sair voando quando você chegar perto, é porque está no meio de uma refeição. Vale agachar e olhar a tromba enrolada trabalhando na poça. E se ela estiver numa flor vermelha de tubo, é a mesma história: as de tromba comprida gostam dessas.
Fontes: Wijnen e colaboradores, Colors and pterin pigmentation of pierid butterfly wings (2007); Pterin-based pigmentation in animals (Biology Letters, Royal Society, 2021); Voos migratórios de Pieridae no Distrito Federal (Revista Brasileira de Zoologia); plantas hospedeiras em Phoebis argante, Wikipedia; contagem de registros no iNaturalist; Butterflies and Moths of North America e Florida Wildflower Foundation, flores visitadas pelas Phoebis e diferença entre machos e fêmeas no hábito de tomar sal no chão.