Bolacha-do-mar-de-cinco-furos
Mellita quinquiesperforata
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Os cinco furos não são estrago. Eles são parte do animal, nascem com ele, e são a coisa mais estudada e mais discutida dessa bolacha-do-mar. Têm até nome próprio: lúnulas.
A primeira resposta veio de um experimento simples. Taparam os furos e puseram o animal numa corrente de água. Com os furos tapados, ele era arrastado com correnteza bem mais fraca, cerca de quinze por cento mais fraca. A explicação é a de uma asa ao contrário: quando a água corre por cima de um disco liso, ela empurra o disco para cima e o descola do fundo. Deixando a água atravessar, a diferença de pressão entre o lado de cima e o de baixo se alivia, e o animal continua colado na areia.
Só que outra equipe tapou os mesmos furos e viu outra coisa. Os animais com os furos fechados passaram a comer pior, com menos conteúdo no estômago. Para esse time, os furos seriam uma passagem de comida, um caminho para levar partícula do lado de cima para a boca, que fica embaixo.
E aí um terceiro grupo sentou e filmou a água de perto. O caminho de comida que a segunda ideia exigia simplesmente não estava lá. Eles escreveram isso com todas as letras: não encontraram nenhuma evidência. Descobriram, de quebra, que o fluxo pelos furos é intermitente, e que às vezes ele inverte e a água desce por eles quando o animal se levanta um pouco do fundo.
O furo de trás, aliás, não é irmão dos outros quatro. Ele tem outra origem, e a descrição publicada dele é de tirar o chapéu: nasceu de uma falha de crescimento. Uma placa da carapaça que deveria ter encostado na vizinha e fechado a costura simplesmente não fechou. Um defeito que acabou virando vantagem e ficou.
E ela come de um jeito que ninguém imagina. Durante muito tempo se achou que ela peneirava a areia. Não peneira. Ela cata grão por grão, um de cada vez, com pezinhos de ponta arredondada que cobrem a face de baixo, e vai passando cada grão de pezinho em pezinho, como uma corrente de mão em mão, até sulcos que levam à boca. Ali tudo é colado num cordão de muco e engolido. Os grãos que ela escolhe têm entre um décimo e um quarto de milímetro. E na boca há dentes fortes o bastante para quebrar o grão de areia e soltar o que estava grudado nele, que é o que de fato alimenta.
O desenho de flor no alto é outro departamento. Aquelas cinco pétalas são cheias de furinhos pareados por onde saem pezinhos achatados que servem para respirar. Andar e comer é com os de baixo; respirar é com os de cima.
A carapaça é um endoesqueleto de peças calcárias costuradas umas nas outras, e por dentro dela existem pilares ligando o teto ao piso, inclusive no meio do disco. É uma laje com colunas. Vive pouco para tanto engenho: cerca de dois anos e quatro meses, chegando a uns sete centímetros e meio de largura.
Essa eu encontrei na areia de Caraguatatuba, em setembro, já vazia e meio enterrada, ainda com o verde do animal vivo e a marca dos espinhos na superfície. Um detalhe que me surpreendeu ao pesquisar: quase tudo que se estudou dela no Brasil é do Ceará, do Paraná e do Rio Grande do Sul. Para o litoral de São Paulo, quase não há trabalho publicado. Essa que estava na areia é, de certo modo, um registro de um lugar onde quase ninguém olhou.