Leptuca uruguayensis

Leptuca uruguayensis

Grupo
Crustáceos
Fotografias
6

O macho desse caranguejo levanta um capuz de areia molhada na porta de casa. É uma abóbada pequena, mais larga do que alta, meio encurvada, que fica de pé na boca da toca como um telhadinho. De todos os caranguejos-violinistas do mundo, só dezoito espécies constroem alguma coisa assim, e esta é uma delas.

O capuz não é enfeite. É ponto de referência. Com ele marcando a entrada, o macho consegue se afastar bem mais da própria casa para cortejar as fêmeas e ainda assim achar o caminho de volta na hora do aperto. Quem mora num lamaçal liso, onde um buraco é igual ao outro, precisa de um marco.

E aqui vem a parte que surpreendeu até quem foi estudar. A expectativa era que, quanto mais apertada a vizinhança, mais capuzes. Deu o contrário: eles constroem mais capuzes onde há menos caranguejos e as tocas ficam mais longe umas das outras. Faz todo sentido quando se pensa para que o capuz serve. Quanto mais espaço vazio entre uma casa e outra, mais longe ele precisa ir, e mais ele precisa de um sinal para voltar.

A quantidade de vizinhos muda até o jeito de namorar, e muda por completo. Onde eles estão apinhados, o encontro acontece embaixo da terra, dentro da toca do macho. Onde estão espalhados, ele nem acena: caminha até a porta da vizinha e o encontro acontece ali fora mesmo. E quem decide é ela, que entra e examina a toca antes de aceitar. Não é só o dono que está sendo avaliado, é a casa.

O que eu fotografei em Caraguatatuba, num mangue no meio da cidade, em setembro, é a versão apinhada. Numa das fotos o lamaçal aparece coberto deles até onde a imagem alcança, e cada pontinho é um caranguejo na porta da sua toca.

Nas fotos dá para ver uma coisa que nenhuma descrição conta direito: os machos são laranja vivo, com um escudo claro, quase azulado, nas costas, e o dedo da garra grande é branco. Os que não têm a garra grande são pequenos e cinzentos, exatamente da cor da lama. No mesmo quadro, uns saltam aos olhos e os outros quase somem.

Saber qual das espécies é dá trabalho, porque num mesmo mangue moram várias parecidas. Esta tem uma marca própria: na palma da garra grande corre um sulco comprido, que vive entupido de lama. E ela é das pequenas, com a carapaça de um macho adulto não passando de doze milímetros, coisa do tamanho de uma unha. Aqui no litoral de São Paulo ela procura sombra, fica na parte sombreada de dentro da vegetação e até embaixo de ponte, e quando a lama passa dos vinte e sete graus ela diminui o movimento.

E tem um título que é só dela. Entre todos os caranguejos-violinistas do planeta, este é o que vive mais ao sul. As populações firmes descem até uma baía na Argentina, e dali para baixo aparecem só uns poucos, de vez em quando. O que parece segurar esse limite é o vento, pelo jeito como ele carrega ou deixa de carregar as larvas do caranguejo mar afora.

Da próxima vez que você passar num mangue com a maré baixa, abaixe e olhe a boca das tocas. Se encontrar uma abobadinha de areia de pé, é obra de macho. É o portão da casa, construído para ele mesmo se achar na volta.

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