Craca-de-pescoço
Lepas anserifera
- Grupo
- Crustáceos
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 3
Antigamente, tinha gente que jurava que dessa craca nascia ganso. Sem brincadeira: na Idade Média, ninguém sabia onde uma certa espécie de ganso fazia ninho, porque ele ia se reproduzir longe, no frio. Aí olharam essas cracas penduradas em troncos boiando no mar, com aquele pescoço escuro e a casquinha branca e preta parecendo cabeça de ave, e concluíram: é daqui que os gansos brotam! A história pegou tanto que o nome científico dela ainda carrega isso: quer dizer, mais ou menos, "a que carrega gansos".
Ganso ela não fabrica, mas o que ela faz de verdade é quase tão incrível. Essa craca é uma viajante. Ela não gruda na pedra como as primas: gruda no que estiver boiando. Tronco, boia, casco de navio, pedaço de plástico, qualquer jangada serve. E aí sai navegando o oceano de carona, sem dar uma braçada.
O corpo dela tem duas partes: um pescoço de couro, escuro e flexível, e na ponta a cabeça protegida por placas claras, de onde saem as perninhas em forma de pluma. Debaixo d'água, ela abre esse leque de pernas e fica peneirando o mar, catando os bichinhos minúsculos que boiam por ali.
Elas viajam sempre em grupo, forrando o tronco inteiro, uma coladinha na outra. E quando o mar joga a jangada na praia, a gente ganha a visita: um pedaço de madeira coberto de viajantes que talvez tenham cruzado o oceano.
Essas eu fotografei num tronco que o mar trouxe pra areia, aqui em Maresias.
De ganso ela não tem nada, no fim das contas. Mas convenhamos: um bichinho que dá a volta ao mundo grudado num pau boiando quase merece a lenda.