Guará
Eudocimus ruber
- Grupo
- Aves
- Onde foi registrada
- Cananéia
- Fotografias
- 30
Ouvir a história, na voz do autor:
Existe um manto feito de penas de guará que é um dos objetos mais importantes da cultura indígena brasileira. Os Tupinambá que viviam neste litoral faziam essas vestes com milhares de penas vermelhas amarradas em fibra vegetal, para os chefes e pajés usarem nas grandes cerimônias. Não era um enfeite: era veste sagrada, e para o povo Tupinambá o manto é um ser vivo, um encantado, não um objeto. Hoje se conhecem onze desses mantos, todos feitos nos séculos XVI e XVII, e todos foram parar na Europa, por saque, troca ou presente: quatro na Dinamarca, três na Itália, um na Bélgica, um na França, um na Suíça. O mais bem conservado ficou mais de trezentos anos em Copenhague. Em julho de 2024, depois de mais de vinte anos de pedidos do povo Tupinambá, ele voltou ao Brasil e está no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Nas palavras de Glicéria Tupinambá, que retomou a arte de fazer mantos: "quando os colonizadores levaram o manto, retiraram nossa força". Foi ela quem, em 2018, na reserva do museu do Quai Branly, em Paris, ficou diante de um deles e contou: "o manto falou comigo". E explica: "para a gente é um ancestral e ele tem uma questão a falar, a mostrar sua presença".
E a história desses mantos passa por aqui. Cunhambebe, o grande chefe tupinambá dos anos 1550, mandava em toda a costa entre Cabo Frio e Bertioga, e São Sebastião fica bem no meio. Foi ele quem deu um manto de presente ao frade francês André Thevet, que o levou para a França e escreveu que ficou impressionado com o que os nativos sabiam fazer. Na mesma década, o alemão Hans Staden passou nove meses prisioneiro dos Tupinambá deste litoral e anotou o nome da ave como "uwara", num livro de 1557: é o registro escrito mais antigo que se conhece da palavra guará. As primeiras menções à espécie no Brasil falam justamente de artesãos indígenas usando as penas dela na região que hoje é o estado de São Paulo.
A ave que deu a cor a tudo isso é o guará. E ele nasce sem a cor do guará: o filhote vem ao mundo escuro e acinzentado, e o escarlate ele conquista comendo. Os caranguejos e camarões do mangue carregam pigmentos que o corpo dele transforma e deposita nas penas, troca de pena após troca de pena. Um guará criado sem esse cardápio vai perdendo a cor. Ou seja, o vermelho do manto sagrado é, literalmente, feito do mangue.
Depois dos mantos, o guará sumiu daqui. No século XX a população do Sudeste ficou tão reduzida que um exemplar coletado no litoral de São Paulo em 1961 foi considerado o primeiro registro em décadas. A partir dos anos 1980 ela começou a se recuperar: em 1998 eram uns 385 nos manguezais de Santos, e em Cananéia os primeiros bandos apareceram em 2007. Hoje ele nidifica todo ano no complexo de Iguape, Cananéia e Ilha Comprida, mas continua "em perigo" na lista vermelha do estado de São Paulo. E em São Sebastião, na terra do chefe que vestia as penas dele, não há um único registro dessa ave no iNaturalist. A cor que vestiu Cunhambebe ainda não voltou para cá.
Por isso fui até Cananéia para ver. Numa manhã de julho de 2026, no Lagamar, a maré tinha baixado e deixado o lodo escuro do mangue à mostra, entre as raízes retorcidas. Foi ali que o vermelho apareceu: um guará sozinho, andando devagar com o bico comprido e curvo enfiado na lama, e o reflexo dele tremendo na água. Logo depois, sete de uma vez, espalhados pelo barro cinza como brasas acesas. Não existe como confundir com outra ave: é vermelho do bico ao pé, e só as pontas das asas são escuras. Ver aquele vermelho recortado contra o verde e o lodo do mangue é coisa de não esquecer, e agora sei que é também a cor de um manto que atravessou o oceano duas vezes.
Fica a charada boa de contar: qual é a cor do guará? Depende do que ele andou comendo. A resposta está no fundo da lama, nas garras de um caranguejo.
Fontes: a observação no iNaturalist, o manto tupinambá na Wikipédia, com a devolução de 2024, o guará na Wikipédia, com a história da espécie no litoral paulista), Cunhambebe, Hans Staden e a entrevista de Glicéria Tupinambá à Mongabay, em 2024.