Cigarrão-de-nariz-serrilhado
Cathedra serrata
- Grupo
- Insetos
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 9
Esse bicho carrega uma serra na cabeça, e a serra é oca. Não é nariz, não é boca, não é chifre: é a própria cabeça que cresceu pra frente, cheia de dentinhos e vazia por dentro. Pra que serve, ninguém sabe. Cientistas estudam esse grupo há mais de duzentos anos e a resposta continua em aberto: pode ser pra impressionar parceiro, pode ser pra parecer um galho quebrado cheio de espinhos, pode ser as duas coisas.
E por causa de uma cabeça assim, a família inteira dele carrega uma mentira no nome. Em 1705 a naturalista Maria Sibylla Merian voltou do Suriname e escreveu que a cabeça oca de um parente dele brilhava no escuro, forte o bastante pra ler um livro. Lineu, o pai da classificação dos seres vivos, acreditou sem testar e batizou espécies de laternaria, phosphorea e candelaria: lanterna, fósforo e vela. Em inglês eles se chamam lanternflies até hoje, os insetos-lanterna.
Só que nenhum deles acende. Em 1983 um pesquisador pegou a tal lanterna e testou nela todo processo de luz conhecido nos seres vivos. Nada. Trezentos anos de lanterna apagada, e o nome ficou.
Ele é um primo grande das cigarrinhas. Vive de seiva: encosta na planta, fura com um canudo fino e bebe. O corpo é pintado de casca de árvore, verde e marrom manchado, e parado num tronco ele desaparece. Por baixo, escondido pelas asas, o abdome é laranja vivo.
Foi descrito em 1781, a partir de um exemplar do Suriname, e por muito tempo a ciência achou que ele morava só lá em cima, no norte da América do Sul. Hoje o Brasil é o país com mais registros dele no iNaturalist, mas ainda são poucos: cerca de cinquenta no país inteiro. No estado de São Paulo, dois. Um em Iporanga. O outro é o meu.
Foi numa manhã de março de 2022, aqui em Maresias. Ele ficou parado tempo suficiente pra eu fotografar de cima, de lado e por baixo, a serra inteira. Nove fotos de um bicho que o estado de São Paulo só viu duas vezes.
Se um dia você cruzar com um inseto de casca de árvore com uma serra na frente da cabeça, não espere ele acender. Repare na serra. É um mistério de trezentos anos parado na sua frente.