Carão

Aramus guarauna

Grupo
Aves
Onde foi registrada
Santa Isabel
Status de conservação
Pouco preocupante (LC)
Fotografias
3

Onde o carão almoça, ele deixa a louça suja: conchas de caramujo vazias, inteirinhas, sem um arranhão. O prato favorito dele são os caramujos grandes dos brejos, e ele desenvolveu uma técnica de cirurgião pra comê-los: com o bico forte e levemente curvado, separa o corpo do bicho lá de dentro e o puxa pra fora, deixando a casca intacta pra trás. Nada de quebrar: ele abre o caramujo como quem abre um pote.

O carão é uma ave grandona de brejo, marrom-acinzentada e salpicada de pingos claros, de pernas compridas e passos calculados. À distância parece uma saracura gigante, mas não é: ele é único, o único representante vivo da família dele no mundo inteiro.

E que voz. O grito do carão é um dos sons mais impressionantes das áreas alagadas: um lamento alto e comprido que ecoa no amanhecer e no entardecer, desses que arrepiam quem ouve pela primeira vez sem saber o que é.

Ele passa o dia caminhando devagar entre taboas e aguapés, quase sempre sozinho ou em casal, caçando seus caramujos e, de quebra, insetos aquáticos. O ninho é uma plataforma de talos e folhas trançados, erguida sobre a água. Os filhotes nascem escuros e já espertos, prontos pra acompanhar os pais pela vegetação flutuante.

Tem um detalhe bonito nisso tudo: carão só vive onde o brejo está saudável, com água limpa e fartura de caramujos. A presença dele é um atestado de qualidade do lugar.

O da foto caminhava sem pressa numa área alagada em Santa Isabel, do jeito dele, como quem confere o estoque do restaurante.

Se um dia você achar um montinho de conchas vazias na beira de um brejo, olha em volta com calma. O dono da louça pode estar por perto, de bico erguido, pronto pra soltar o famoso lamento dele.

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