Baiacu-carioca
Sphoeroides camila
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Esse baiacu passou mais de cem anos atendendo pelo nome de outro. Quem encontrava um deles na costa do Brasil chamava pelo nome do baiacu do Caribe, e assim ficou, em livro de peixe, em lista de fauna, em gaveta de museu. Só em 2023 ele ganhou nome próprio.
E o nome é de uma menina. Um dos pesquisadores que descreveram a espécie batizou ela de camila, que é o nome de uma das filhas dele. Para o português, eles propuseram chamar de baiacu-pinima.
Para batizar uma espécie nova, o pesquisador precisa escolher um peixe de verdade, guardado num museu, que fica sendo a referência dali em diante: quem tiver dúvida no futuro vai lá e compara. O peixe escolhido para este baiacu foi pescado em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1982. Ele passou quarenta e um anos dentro de um vidro, na prateleira, até virar espécie nova em 2023. E quem o pescou em 1982 é o mesmo pesquisador que o descreveu em 2023.
Outros peixes do museu entraram junto nessa descrição, e alguns são bem mais velhos. Uns foram recolhidos no Brasil por uma expedição americana entre 1838 e 1842, outros por Louis Agassiz em 1866. Ficaram mais de cento e cinquenta anos guardados, com o nome do baiacu do Caribe escrito na etiqueta. Em 1969 um especialista no grupo abriu um desses vidros, examinou o peixe e escreveu na ficha o mesmo nome errado.
São três peixes muito parecidos dividindo o Atlântico: um no Caribe, um do outro lado do oceano, perto da África, e esse daqui, que vive do Norte ao Sudeste do Brasil. Vieram todos do mesmo antepassado e viraram três espécies diferentes porque o oceano foi separando uns dos outros até eles pararem de se encontrar.
Para saber qual é, o lugar de olhar é a lateral de baixo. Ele tem uma fileira de manchas pretas que corre do queixo até o rabo, e as do meio do corpo são esticadas para baixo, em forma de gota. Tem duas abinhas claras de pele logo antes da guelra, que os parecidos não têm. E o olho é amarelo.
Essa parte do amarelo tem um detalhe bonito. O olho amarelo e uns círculos azuis que ele tem nas costas só existem no peixe vivo: na conserva, o azul desaparece e o olho perde a cor. Ninguém descreve isso olhando só o material de museu, precisa de quem tenha visto o peixe vivo. Nas fotos da areia de Maresias o olho está inteiro, dourado, com a pupila preta no meio.
No dia a dia ele nem é peixe de areia. Vive em água rasa e clara, em costão de pedra e em recife, até uns vinte metros de fundo, sozinho ou em grupinho, parado logo acima das pedras. De noite ele se enfia numa fresta ou se enterra pela metade na areia do lado do recife, deixando de fora só os olhos e as costas. E come o que aparecer: já viram um deles seguindo uma moreia que caçava, para roubar os caranguejos que a moreia espantava.
Cresce até uns catorze centímetros, e o que apareceu na areia de Maresias, em setembro, era bem menor que isso, do tamanho de um dedo. Estava inflado, com a barriga branca redonda e dura. Inflar é o que todo baiacu faz quando se assusta, e o jeito é este: ele enche a boca de água, fecha a boca e empurra a água para dentro do estômago. O estômago e a pele da barriga esticam muito, e ele não tem costela nenhuma atrapalhando, então o corpo vira uma bola grande demais para caber na boca de quem ia comer. É água, não ar.
E baiacu não se come. Peixes desse mesmo gênero, pescados aqui no canal de São Sebastião, foram testados e tinham veneno forte na pele e nas vísceras, o mesmo veneno que faz o baiacu ser peixe de cozinheiro treinado no Japão. Nesta espécie em particular ninguém mediu ainda, e é justamente por isso que não se põe na boca.
Se um desses aparecer na sua praia, repare na fileira de pintas embaixo e no olho amarelo. É um peixe que esteve aqui o tempo todo e só anteontem ganhou um nome.