Quaresmeira
Pleroma granulosum
- Grupo
- Plantas
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 5
A abelha chega, abraça o miolo da flor roxa e começa a zunir. Não é raiva, é técnica: chacoalhar até zumbir é o único jeito de arrancar o pólen dessa quaresmeira, que guarda tudo a sete chaves.
Repara nas anteras, aquelas dez varetinhas curvas no meio da flor: elas não abrem. Não tem fenda, não tem rasgo. Cada uma tem só um furo minúsculo lá na ponta, e o pólen fica guardado dentro, igual sal dentro de saleiro.
A abelha grande, dessas mamangavas pesadas que fazem barulho de motor, sabe o que fazer. Ela abraça as anteras, trava as asas e vibra os músculos do peito com força. A flor zune junto, e o pólen sai pelo furinho numa nuvem, direto no corpo peludo dela. Quem não sabe fazer isso chega depois, só pra catar o que sobrou.
E tem sinalização na porta. As pontas das anteras e o miolo da flor têm substâncias que absorvem luz ultravioleta, formando um alvo que a abelha enxerga e a gente não. A flor pinta a placa exatamente na cor que só o cliente lê.
Cada flor dura pouco, e a árvore compensa no volume: abre tanta flor ao mesmo tempo que, de longe, some o verde e sobra só o roxo.
Ela é nativa do Brasil, da Mata Atlântica, e o registro oficial de onde ela cresce sozinha na natureza é o Rio de Janeiro. Só que ficou tão famosa de bonita que virou árvore de calçada no Sudeste inteiro, plantada por gente, inclusive aqui na nossa rua.
O apelido vem da época: o auge da florada cai por volta da Quaresma. Essa foto eu fiz na rua de casa num três de fevereiro, quando ainda faltavam onze dias pra Quaresma daquele ano começar, e a árvore já estava toda roxa. Foi o Kaian quem me chamou: pai, vem ver a árvore roxa.
Aquele zumbido grave que sai de dentro de uma quaresmeira florida, bem mais grosso que o de abelha comum, é mamangava trabalhando. Ela sacode a flor até a flor entregar, e sai de lá paga em pólen.