Ophion
Ophion
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Essa vespa apareceu na parede de casa, à noite, chamada pela luz. É assim que se encontra esse grupo: elas caçam no escuro, e quem quiser ver uma precisa acender uma lâmpada e esperar.
O corpo dela conta essa vida inteira. Repare no tamanho dos três olhos simples no alto da cabeça, aqueles pontinhos brilhantes entre os olhos grandes: neste grupo eles são enormes, tão grandes que quase encostam nos olhos. Some a isso as antenas compridas feito chicote e a cor de mel, clara, quase translúcida. Esse conjunto se repete em todas as vespas dessa família que voam de noite, e a prova está nos parentes: os dois gêneros próximos que voam de dia são escuros, de antena curta e olhos simples pequenos.
O que ela procura no escuro é lagarta. E aqui vem a diferença que interessa, porque o acervo já tem uma vespa que faz coisa parecida de um jeito completamente diferente. Naquela, dezenas de larvas crescem dentro de uma lagarta só e saem juntas. Nesta, é uma. Um ovo solto no corpo da lagarta, uma larva, uma vespa. Não se conhece nenhuma espécie desse grupo que cresça em turma.
E a lagarta não fica paralisada. Ela continua andando e continua comendo, talvez um pouco menos, e continua crescendo. A larva da vespa espera. Espera a lagarta chegar ao tamanho final, e muitas vezes espera ela tecer o próprio casulo ou cavar a câmara onde ia virar pupa. Só então a vespa termina o serviço, consumindo tudo por dentro e deixando apenas a casca e a cápsula da cabeça. Depois tece o casulo dela ali mesmo, dentro do abrigo que a lagarta construiu achando que era para si.
Outra coisa que me impressionou: a fêmea já nasce com os ovos prontos. Quando ela sai do casulo, traz o estoque completo, entre sete e trinta ovos maduros em cada um dos dois canais, e começa a usar em menos de um dia. Ela não fabrica mais depois. A vida adulta inteira é gastar o que já veio.
O nome dela para no gênero, e não é limitação da foto. As espécies desse gênero são quase idênticas entre si e muito variáveis dentro de cada uma, não existe um único detalhe que separe uma da outra, e as chaves de identificação que existem são difíceis ou desatualizadas. No Brasil o quadro é pior: de cada quatro espécies desse grupo registradas no país, três não têm nenhum hospedeiro conhecido.
E tem um detalhe que faz esse encontro valer mais do que parece. Esse gênero é, no geral, de clima frio: predomina nas regiões temperadas e, no trópico, em topo de montanha. Encontrar uma na parede de uma casa ao nível do mar, no litoral, não é o esperado.
Se um dia aparecer uma dessas na sua parede, de madrugada, cor de mel e com antenas que não acabam mais, não espante. Ela está de plantão, procurando uma lagarta no escuro, e o serviço dela é de uma paciência que a gente mal imagina.