Enyo cavifer
Enyo cavifer
- Grupo
- Insetos · mariposa
- Onde foi registrada
- São Sebastião, Maresias
- Status de conservação
- Não avaliada (NE)
- Fotografias
- 3
Numa manhã de junho de 2025, em Maresias, encontrei uma mariposa parada num piso de cimento claro, de asas abertas, marrom-escura com as pontas das asas cor de areia e o corpo listrado. Vista de lado, com as asas dobradas em quinas, ela vira uma folha seca retorcida, e é assim que ela passa o dia sem ser notada. Fotografei de cima, de frente e de lado, e deixei que seguisse.
Quando publiquei no iNaturalist, dei o nome errado: achei que era a Enyo gorgon, a prima comum, que aparece em todo canto. No mesmo dia, o Enrico Tosto e o Pedro Lafin, dois identificadores do site, corrigiram: era Enyo cavifer, a prima que quase ninguém vê. Um ano depois, o Liu Idárraga Orozco, identificador com quase 20 mil identificações no iNaturalist, passou pelo registro e fez a conta: era o oitavo registro dessa espécie no estado de São Paulo, o décimo segundo do Sudeste e o trigésimo do Brasil inteiro no iNaturalist. Em todo o município de São Sebastião, continua sendo o único.
Ela é uma mariposa-esfinge, a família dos melhores voadores entre as mariposas: corpo em forma de fuso, asas estreitas e a capacidade de pairar no ar na frente de uma flor, batendo asa tão rápido que o olho não acompanha, e sugando o néctar com uma tromba comprida sem nunca pousar. Quem vê isso ao entardecer costuma jurar que viu um beija-flor pequeno. Esta tem uns 6 centímetros de asa a asa. As lagartas do gênero comem folhas da família da uva, os cipós que sobem pelas árvores na beira da mata.
A espécie foi descrita em 1903 por Walter Rothschild e Karl Jordan, um banqueiro inglês e um zoólogo alemão que trabalhavam juntos no museu de Tring, na Inglaterra, e que naquele ano publicaram uma revisão de todas as mariposas-esfinge do mundo, o trabalho que ainda serve de base para o grupo. Ela vive do México à Bolívia, e o país que mais a registra é a Costa Rica. No Brasil, a história dela em coleções é curta: um exemplar de Corupá, em Santa Catarina, de setembro de 1950, guardado na Universidade Yale, nos Estados Unidos; alguns do Rio de Janeiro, dos anos 1960, e de Santa Catarina, dos anos 1970, na Universidade Federal do Paraná; e um de 2002, também de Santa Catarina, no insetário de Montreal.
Depois de 2002 ela some: de 2003 a 2014, nenhum registro dela no Brasil, nem no GBIF nem no iNaturalist. Até ali, tudo o que a ciência conhecia dessa mariposa no país eram nove exemplares mortos, guardados em gavetas de museu, sem uma foto dela viva. A primeira foto apareceu em 2015, no iNaturalist, em Angra dos Reis. Nada em 2016, 2017, 2018 e 2019. Aí vieram 3 em 2020, 1 em 2021, 5 em 2022, 5 em 2023, 8 em 2024, 14 em 2025 e mais 6 só neste ano. A mariposa não se multiplicou de repente: o que se multiplicou foi a quantidade de gente fotografando o que encontra e publicando com data e lugar. Hoje ela tem 43 registros no Brasil, cada um com foto, data e lugar. É um número que diz mais sobre as pessoas do que sobre a mariposa.
É isso que este acervo também é. Cada foto com data e lugar vira um ponto no mapa de uma espécie, e para uma mariposa como esta, cada ponto conta. O oitavo de São Paulo é meu.
Se aparecer na sua parede uma mariposa marrom, angulosa, com as pontas das asas mais claras e o corpo listrado, fotografe de cima e de lado e registre. Pode ser a segunda de São Sebastião.
Fontes: a observação no iNaturalist, com a conta do Liu, a espécie no GBIF, os registros brasileiros no GBIF, o exemplar de Corupá, 1950, na Universidade Yale e a espécie na Wikipédia.