Xenius corallifer

Xenius corallifer

Grupo
Insetos · besouro
Onde foi registrada
São Sebastião, Maresias
Status de conservação
Não avaliada (NE)
Fotografias
15

Numa manhã de outubro de 2021, num pé de mato perto da praia de Maresias, encontrei um besouro pequeno, de uns 7 milímetros, preto brilhante e coberto de bolinhas vermelhas, como se alguém tivesse colado grãos de coral nas costas dele. Achei que fosse uma joaninha diferente. Fotografei de todos os ângulos e publiquei no iNaturalist, o site onde a gente registra o que encontra e outros observadores ajudam a identificar. Não fazia ideia do que estava por vir.

Ninguém reconheceu o besouro. O primeiro a se debruçar foi o Fernando Sessegolo (fmiudo no iNaturalist), identificador brasileiro com mais de 24 mil identificações feitas para outras pessoas. Ele achou parecido com um gorgulho, mas queria ver a cabeça melhor. Como não encontrou nada igual, foi atrás do jeito antigo, e contou o caminho passo a passo. Primeiro achou outra foto do mesmo besouro, feita em 2015 em Tinguá, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e que estava havia dois anos guardada no iNaturalist sob o nome de outro gênero, Cyrtosoma, sem que ninguém conseguisse fechar a espécie. Conferiu as espécies de Cyrtosoma já descritas: nenhuma tinha aquelas bolinhas nas asas. Aí abriu a lista de Blackwelder, o catálogo dos besouros da América Latina, e foi conferir o gênero seguinte da lista, Xenius, que tinha uma única espécie registrada pro Brasil: Xenius corallifer. O nome já bastava pra desconfiar: corallifer quer dizer "o que carrega corais". O rastro levou a um artigo alemão de 1928, digitalizado no acervo austríaco Zobodat, e lá estava o besouro descrito palavra por palavra.

Quem fechou a questão foi o Boris Büche (borisb no iNaturalist), entomólogo de Berlim que nasceu em Hamburgo, a mesma cidade de Gebien, estuda besouros desde 1980, já passou de um milhão de identificações no iNaturalist e me ajuda há anos com os besouros daqui. Ele leu o texto original em alemão e disse que cada detalhe da descrição batia com as fotos. E traduziu a frase com que o autor encerra a descrição: a escultura das asas é tão peculiar, nós vermelhos sobre fundo preto, que a espécie não pode ser confundida com nenhum outro besouro da família. Foi exatamente o que eu tinha na foto. O Enrico Tosto, outro identificador, confirmou em seguida. Tudo isso aconteceu no mesmo dia em que publiquei o registro, 27 de outubro de 2021. E a foto do Tinguá, que dormia sob o nome errado, foi corrigida na sequência: hoje as duas observações são as únicas dessa espécie no iNaturalist inteiro.

O autor da descrição foi Hans Gebien, de Hamburgo, professor de escola e um dos maiores especialistas do mundo na família dos besouros-escuros, os tenebrionídeos. Em 1928 ele publicou na revista Stettiner Entomologische Zeitung um estudo sobre os tenebrionídeos americanos e, nas páginas 200 e 201, descreveu esta espécie a partir de dois exemplares da sua coleção particular, vindos de Santa Catarina, sem data nem lugar exato. Ele conta que no início achou que tinha um gênero novo nas mãos, e só depois o encaixou em Xenius, um gênero criado em 1886 pelo inglês George Charles Champion para uma espécie da América Central. Gebien deixou Xenius ao lado de Cyrtosoma, por parentesco. Foi justamente em Cyrtosoma que o besouro do Tinguá ficou parado por dois anos, e foi ali que o Fernando começou a procurar. A ciência de 1928 já tinha apontado o caminho.

Depois de 1928 o besouro praticamente sumiu. Somando os bancos de dados científicos do mundo, o que existe é isto: os dois exemplares de Gebien, cuja coleção está hoje repartida entre museus de Hamburgo, Basileia e Milão; um lote com seis exemplares no Museu Nacional de História Natural de Paris, coletados em Corupá, também em Santa Catarina, sem data no catálogo; um registro de março de 2015 no maciço do Mitaraka, no sul da Guiana Francesa, feito pela expedição La Planète Revisitée, do próprio museu de Paris, que mostra que a espécie chega até a floresta amazônica; a foto do Tinguá, de fevereiro de 2015; e a minha, de Maresias. Fotos do besouro vivo, na internet, são só essas duas. Em quase cem anos, não encontrei uma linha publicada sobre como ele vive.

Ele é da família dos besouros-escuros, um grupo enorme que trabalha no porão da floresta: madeira apodrecendo, folhas caídas, cogumelos nos troncos. É gente que recicla o que morreu, e por isso quase nunca aparece pra quem passa. Do que esse aqui come e de como vive, ninguém sabe. Tudo o que a ciência tem dele cabe em duas páginas de 1928 e em duas fotos na internet.

Por isso, quando você procura o nome dele na internet, as imagens que aparecem são as minhas. Seis fotos desse registro estão hoje no Wikimedia Commons, liberadas para uso livre, e a página da espécie no GBIF, o maior banco de biodiversidade do mundo, ilustra o besouro com uma delas. É uma das espécies mais raras de todo este acervo, e ela mora aqui.

Se você encontrar um besouro preto pequeno, com bolinhas vermelhas nas costas, não passe reto: fotografe de perto, de cima e de lado, e registre. Pode ser a terceira foto do mundo.

Fontes: a observação e a conversa completa no iNaturalist, o artigo original de Hans Gebien, 1928, em PDF no Zobodat (páginas 200 e 201 da revista), o registro do Tinguá, a página da espécie no GBIF, o lote do museu de Paris, o registro da expedição na Guiana Francesa, as fotos no Wikimedia Commons e quem foi Hans Gebien.

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