Catiguá-morcego

Guarea macrophylla

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Essa árvore se chama catiguá-morcego, e ninguém sabe explicar por quê.

Fui atrás do morcego. Procurei nos levantamentos de morcego frugívoro da Mata Atlântica, nas listas de plantas que dependem de morcego para espalhar semente, e nos estudos de polinização da família dela. Não há um único registro de morcego comendo o fruto desta árvore, nem do gênero inteiro. E polinizar ela o morcego não poderia: a flor tem cerca de oito milímetros, pequena demais para isso.

O nome também não está onde deveria estar. Nas duas floras de referência, a do Brasil e a do estado de São Paulo, ela aparece como café-bravo, café-do-mato, camboatá e catiguá-branca. Catiguá-morcego não consta em nenhuma das duas. Ele vive em outro lugar: é o nome pelo qual as mudas dela são produzidas no viveiro municipal de São Paulo. Nome de quem planta, não de quem cataloga.

E ele não está sozinho. A mesma árvore também é chamada de saco-de-gambá e de calcanhar-de-cotia. Três nomes, três partes de animal, e nenhum deles é um animal que come ela. É um jeito de batizar pela forma, não pelo hábito do animal, e o resultado é um nome que descreve uma coisa que a gente deixou de enxergar.

O animal que de fato tem história documentada com ela é uma mariposa. A broca-dos-ponteiros, que é a praga clássica das árvores dessa família, fareja esta aqui: mediram a resposta da antena dela ao óleo volátil das folhas e ela detecta. E o óleo não é o mesmo o ano todo, muda com a estação. Ou seja, a árvore tem um cheiro que vira e mexe se altera, e existe uma mariposa no mundo afinada nesse cheiro.

O nome científico dela também promete o que não entrega. Macrophylla quer dizer folha grande. Só que, no estado de São Paulo, das três espécies do gênero, a folha maior é a de uma prima, não a dela.

Essa prima, aliás, já está aqui no acervo, e o contraste vale. A outra passa dos vinte metros e tem pé macho e pé fêmea separados. Esta para nos dez metros, fica no andar de baixo da mata, e cada árvore tem as duas coisas na mesma flor.

Fotografei em setembro, em São Sebastião, com os frutos ainda fechados, pendurados em cabinhos longos e finos bem longe da folhagem. E é justamente o fruto que garante o nome: aveludado e com costelas marcadas. As outras duas espécies do gênero que existem no estado têm cápsula lisa, sem pelo nenhum, salpicada de pontinhos. Essa não deixa dúvida.

Então fica assim: da árvore eu sei o nome científico, sei o porte, sei o cheiro que chama a mariposa e sei reconhecer pelo fruto. Do apelido dela, que é como o viveiro da cidade grande a conhece, eu não sei nada. Alguém, algum dia, olhou para essa árvore e viu um morcego. Essa pessoa não deixou recado.

Catiguá-morcego (Guarea macrophylla), plantas, fotografado em São Sebastião Catiguá-morcego (Guarea macrophylla), plantas, fotografado em São Sebastião

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