Morchella

Morchella

Grupo
Fungos
Onde foi registrada
Itamonte
Fotografias
2

Foi no primeiro dia da primavera de 2024, na serra da Mantiqueira, a 1.400 metros de altitude, numa área de pesquisa em Itamonte chamada Instituto Alto Montana da Serra Fina. Setembro daquele ano tinha sido de seca e fumaça no país inteiro: no ponto onde eu estava, não caía chuva havia duas semanas, e a primeira, de uns 10 milímetros, veio na véspera. Na manhã seguinte, no chão úmido entre folhas secas e pedras cobertas de musgo, estava ele: um cogumelo cor de mel, sozinho, com o chapéu em forma de favo, todo esburacado e com as cristas escuras. Eu conhecia aquela forma de fotos de outros países. Nunca imaginei ver uma aqui. Fotografei de dois lados e deixei no lugar.

É a morel, ou morchella. Na Europa, na América do Norte e na Ásia ela é um dos cogumelos silvestres mais valorizados do mundo: na primavera, as pessoas saem pelas matas para colher, e a morel seca chega a valer centenas de dólares o quilo. O chapéu e o pé formam uma peça só, oca por dentro, e ela só se come cozida. Lá fora é um cogumelo de mercado, de festival, de receita de família.

Aqui ela é um fantasma. No iNaturalist, o Brasil inteiro tem 23 observações de Morchella, e só 3 chegaram ao grau de pesquisa. Quase todas estão no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Santa Catarina. Em Minas Gerais não havia nenhuma. A minha é a única, e a única em toda a Mantiqueira. Quem comentou primeiro foi o Denis Zabin, identificador de fungos com mais de 45 mil identificações no iNaturalist: "Uau! Um fungo extremamente raro de se encontrar no Brasil!". Os pesquisadores do próprio instituto, que estudam os fungos daquela mata todos os dias, também não esperavam.

A história dela no Brasil cabe em nove folhas de herbário. Ernst Ule, botânico alemão que percorreu o país, guardou uma em 1905. Johannes Rick, o padre jesuíta que fundou o estudo dos fungos no Brasil, coletou outra no Rio Grande do Sul em 1907. Depois vieram poucas: 1995 e 2003 no Rio Grande do Sul, 2005 numa colônia de férias em São Paulo, 2023 numa rua de Santa Maria. Em mais de um século, é isso.

E ninguém sabe ao certo qual espécie é a nossa. As folhas antigas foram batizadas com nomes europeus, Morchella esculenta, Morchella conica, mas os micólogos hoje desconfiam desses nomes para o material sul-americano: neste século, a ciência começou a descrever espécies de morel próprias da América tropical, uma delas do Peru. A minha continua no gênero, sem nome de espécie, à espera de alguém que estude o material daqui. O Denis contou que existe uma coleção do Sul do Brasil sendo estudada por um colega dele. Talvez a resposta esteja lá.

Tem mais uma coisa curiosa sobre esse cogumelo. Há mais de cem anos gente tenta cultivá-lo, e durante quase todo esse tempo ninguém conseguiu. Só na década passada, na China, a produção em campo aberto passou a funcionar em escala, e mesmo assim as safras oscilam de um ano para o outro sem que se saiba bem por quê. E na natureza ela tem uma mania: em muitas florestas de coníferas, na primavera seguinte a um grande incêndio, as morels brotam aos milhares no chão queimado. Talvez não seja coincidência que a minha tenha aparecido depois do setembro mais seco e cheio de queimadas dos últimos anos, na manhã seguinte à primeira chuva.

E vale o aviso de sempre: existem cogumelos parecidos que são tóxicos, as falsas morels, e a diferença está por dentro, no chapéu que não é oco. Cogumelo do mato é para fotografar.

Se você andar pela Mantiqueira na primavera, depois da primeira chuva, olhe o chão perto das pedras com musgo. Um chapéu de favo, cor de mel, saindo do folhiço, pode ser a segunda morel de Minas Gerais. Fotografe, registre e deixe onde está.

Fontes: a observação no iNaturalist, com os comentários, o gênero Morchella no GBIF, a folha de Ernst Ule, 1905, a folha de Johannes Rick, 1907, a folha de Santa Maria, 2023 e a morel do Peru, descrita neste século.

Morchella, fungos, fotografado em Itamonte Morchella, fungos, fotografado em Itamonte

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