Aranha-saltadora-cinza-de-parede
Menemerus bivittatus
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Essa aranha mora na parede da sua casa, e a parede não é o lugar dela. Ela nem é daqui: é africana. Foi levada pelo movimento das pessoas e das cargas e hoje está nos seis continentes habitados, sempre do mesmo jeito, grudada no lado de fora das construções.
No Brasil ela está há cerca de cem anos. O primeiro exemplar guardado em coleção foi colhido em novembro de 1924, em Blumenau, e de lá para cá ela se espalhou pelas cidades.
Uma pista de como foi essa viagem está no nome. Ela foi descrita como espécie nova várias vezes, em continentes diferentes, por pesquisadores que não faziam ideia de que era a mesma aranha. Cada um deu um nome, e hoje a lista de nomes velhos dela é enorme. É o rastro de um animal que foi aparecendo em lugares onde ninguém esperava.
Na natureza, longe de nós, o lugar dela é o tronco das árvores. Aqui ela trocou o tronco pela parede, e trocou por completo: nas coleções brasileiras ela aparece praticamente só em ambiente urbano, e quase sempre em construção. E tem um detalhe que explica a troca. À noite, ela se junta perto das luzes e come os insetos que a luz atraiu. A lâmpada acesa na parede faz o serviço que a casca da árvore nunca fez.
É exatamente essa a cena das minhas fotos. Parede clara, à noite, e ela com a presa firme na boca, uma coisa esguia de pernas longuíssimas e dois filamentos compridos saindo da ponta do corpo. Não é presa pequena para o tamanho dela, e isso combina: já registraram essa aranha derrubando moscas de perna comprida com o dobro do comprimento dela.
A que está na foto é fêmea ou jovem, que são parecidas: cinzentas e mosqueadas, da cor do reboco. O macho é outra coisa, listrado de preto e branco, com um vê branco de cabeça para baixo desenhado na frente da cara. O nome dela vem justamente de listra: quem a descreveu, em 1831, chamou de saltadora de duas listras, e o nome em latim diz a mesma coisa. As duas listras correm pela borda do corpo, de ponta a ponta.
Ela também tem um talento que rende manchete. Quando encontra uma fila de formigas carregando as crias, ela se posta no caminho e arranca a larva do carregador. Isso já foi registrado no Brasil e do outro lado do mundo, na Austrália, e o trabalho australiano se chama, literalmente, assalto ao trem.
E faz coisa parecida com abelha. Ela fica de tocaia na porta das colmeias de abelha sem ferrão, pegando quem chega e quem sai. Faz isso com tanta constância que os pesquisadores criaram um nome só para esse hábito, e o nome nasceu de observações dela.
E ela é mãe cuidadosa. A fêmea tece um saco de seda branca dentro de uma fresta, põe de vinte e cinco a quarenta ovos lá dentro, e fica dentro do saco junto com eles, montando guarda até os filhotes se espalharem.
Da próxima vez que você acender a luz da varanda e vir uma aranhinha cinza achatada parada na parede, olhe com calma. Ela veio da África, está no Brasil há um século, e naquele instante está trabalhando.